terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Yabás - As Senhoras das Àguas

 


Desde tempos imemoriáveis a água está ligada ao feminino. Nossos antepassados mais antigos associavam os rios, as fontes, as nascentes e o mar à grande mãe e à deusa, e poucas tradições explicam tão bem essa associação quanto as religiões africanas.

As Yabás, mães do candomblé, são os orixás femininos, todos eles ligados às águas. A água é a sagrada fonte da vida. Até hoje, quando se busca "vida" em outro planeta, a primeira coisa que se procura é àgua em seu estado líquido (água fluída e em movimento), isso porque esse elemento é fundamental para que algo prospere, cresça, nasça ou se desenvolva. 

Nossos ancestrais primordiais (originários da África) viam as mulheres como fontes de vida pois elas podiam gerar novos indivíduos em seus ventres. Mesmo não compreendendo como isso ocorria, a mulher era capaz de dar a luz a um novo ser, algo que o homem não podia. Isso explica o motivo pelos quais as primeiras deidades que se têm  notícias são todas femininas. 

A Deusa Mãe veio muito antes do Deus Pai, e isso não é nenhuma novidade para pesquisadores, historiadores, arqueólogos, etc. E o motivo é simples: a mãe é a geradora, é em seu ventre que se ela guarda o mistério da vida. Todos nós fomos gerados em uma placenta de água que se rompeu quando já estávamos prontos. Ao nascer o filho busca o seio, o leite (o líquido) que o alimenta.

A mãe é deificada pelo filho, para a criança não existe um "Deus" (pois não foi o pai quem o carregou e nem o amamentou) a relação da criança é basicamente materna, pois é dela que depende a sua sobrevivência. Se há algo que se aproxima do divino é a "mãe".

A África mantém tradições primitivas (e não digo de forma pejorativa) onde perduram antigas idéias de nossos antepassados que hoje podem ser compreendidas através de associações primordiais. Nas religiões africanas a àgua só poder ser feminina, portanto todos os orixás ligados à ela são essencialmente femininos. De modo bastante interessante, os mitos desta religião ensina que as transformações e a forma de manifestação da água estão ligados à um Orixá diferente, e é isto o que mais me encanta nestas peculiaridades.

No Candomblé (especialmente os de tradição Ketu) as Yabás (mães) são: Nanã, Oxum, Obá, Ewá, Iansã e Iemanjá e todas elas estão diretamente ligadas às àguas. Há apenas dois orixás também "masculinos" que têm associação a este elemento, são eles: Oxumaré (orixá do arco-iris) e Logun-Edé (filho de Oxum, que vive metade do ano com a mãe e metade do ano com o pai Oxóssi) estes dois orixás entretanto, são considerados meio femininos, chamados também de andróginos. Tanto Oxumaré como Logun são o que se denomina "metá-metá", ou seja: metade masculino e metade feminino.

As Yabás têm características e aspectos de acordo com o seu domínio e é desta forma que se explica as diversas faces destas deidades. Dessa forma importante explanar de que forma esses orixás se mostram e quais as relações de cada uma delas com a àgua.

Em minha concepção tudo se inicia com Nanã, pois ela é mãe ancestral, ela é o orixá dos mangues, dos pântanos, dos locais alagadiços onde o barro está sempre presente. Ela é representada como a "Velha", e essa associação é bastante similar ao deus pai criador, aquele que criou o homem através do barro. É do barro que ele esculpe o primeiro ser vivo à sua imagem e semelhança, pois a terra necessita da umidade provinda da água para ser moldada. Nanã é a velha sábia, calada, instrospectiva, serena e capaz de comandar os Eguns (mortos), pois ela é a avó (nana) feiticeira que não teme a morte, pois compreende que tudo que nasceu está destinado a se findar. Ela é mãe de Obaluaiê (cura), Iroko (árvore), Ossaim (plantas), Oxumaré (arco-iris) e Ewá (neblina).

OXUM
A água dos rios que flui mansamente é Oxum, a senhora das águas doces, dos lagos, espelhos d´água e cachoeiras. Um de seus símbolos é o espelho porque Oxum é a água onde é possível enxergar o reflexo. Ela é a orixá do ouro porque são nas margens rasas e serenas que o ouro é facilmente encontrado. Oxum foi associada à Iara dos mitos amerindios e embora, seja a dona da fertilidade, é mãe de apenas um filho: Logunedé, o orixá andrógino que reside ora na água profunda e misteriosa ora nas matas como caçador com o seu pai Odé (Oxóssi). O símbolo de Logunedé é um peixe porque quando está com a mãe ele habita no fundo das águas doces.

Quando o fluxo da água aumenta e o rio de torna caudaloso, perigoso, revolto, ele se transforma em Obá, uma Orixá guerreira. Assim como o rio turbulento, Obá é aquela que transpõe obstáculos através da força. Ela é uma Orixá associada também agressividade, o que faz com que seus filhos tenham fama de impulsivos e impetuosos.

Uma vez que água se transforma em neblina ela é representada por Ewá. Ela é o nevoeiro que também simboliza o mistério, é a água ascendente que se evapora, por isso é considerada a dona da intuição. Ewá é a mulher em seu estado pueril e casto. Assim como a neblina, ela não pode ser possuída pois se dissipa. Ewá é a única filha de Nanã e, assim como a mãe, são orixás que não devem ser feitos na cabeça de homens - no quarto destes dois orixás, nas Casas de Santo, também não é permitida a entrada de homens. Ewa é vestal que se mantém intocada, guardando em sí o mistério da vida e, na maioria dos candomblés, somente mulheres virgens podem ser consagradas à Ewá. Ela água em seu estado gasoso que sobe e formam as nuvens, aquelas que trarão as chuvas.

E quando as gotículas de água se encontram no céu e formam o arco-iris, é Oxumaré que se mostra, irmão de Ewá - pois é ela quem o ajuda a se formar. Oxumaré é quem transporta a água do céu para a terra. Oxumaré é a também a garoa, a chuva fina, a água que o desce do céu no sereno. Oxumaré é considerado por grande parte dos candomblés um orixá metá-metá, que não pode ser considerado nem homem e nem mulher, mas há tradições que dizem que ele é irmão gêmeo de Ewá, por isso tem ligação com a água. Ewá compartilha portanto com o irmão seu domínio sobre este elemento. 


Iansã - Senhora das Tempestades
Se a nuvem tiver densa, escura e a chuva cair de modo torrencial, a água está sob a forma Iansã, Oyá, senhora das tempestades e dos raios. Ela é a tempestade, a tormenta que cai dos céus não somente para molhar a terra, mas para alagar e destruir. Assim como a mãe, os filhos de Iansã são considerados os mais tempestuosos de todos, pois a passividade e o pacifismo não são o forte deste Orixá. Ela é também representada pelo Búfalo-Africano, um dos animais mais agressivos do continente. Iansã é esposa de Xangô, o orixá do fogo e dos trovões. Assim como Obá, Oyá também é representada como guerreira, uma vez que as tempestades, ao contrário da chuva mansa, causam destruições por onde passam.

As águas de Iansã quando caem, podem se misturar à terra e se tornar Nanã (lama), se mesclar aos lagos e se tornar Oxum (espelhos d´água)  ou se unir em correntes que alimentam Obá (águas turbulentas). Mas ao cair no mar ela se transforma em Iemanjá, a senhora das águas salgadas. Iemanjá é a rainha dos Oceanos e rege as agitadas ondas e também as maresias, das profundezas até a mais suave das espumas. Iemanjá é a deusa mãe por excelência, afinal ela é, de todas as Iabás a que têm mais filhos. São eles: Xangô (fogo), Ogum (guerra), Oxóssi (matas), Exú (caminhos), Okô (agricultura), Obá, Iansã e Oxum. É também o orixá mais lembrado e culturado no Brasil, inclusive entre pessoas que não são do Candonblé.

A água em seu estado sólido, como gelo não é comum na África, muito menos nos países onde grande parte destes mitos é encontrado, isso tende a explicar porque a àgua em seu estado sólido não é representada por uma Yabá. Contudo, se buscarmos em países do hesmisfério norte encontraremos diversas lendas de deidades e entidades femininas que têm poder sobre a neve. Mas este é um tópico para um novo post. 

Axé!



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