segunda-feira, 1 de junho de 2020

Lavandas ou Alfazemas? Eis a Questão


Lavandula Officinalis
O nome lavandula deriva do Latim laavandarius, de onde provém o verbo lavar. Sabe-se que essa planta era utilizada nos antigos banhos romanos pelos soldados que as acrescentavam na água para lavar as feridas adquiridas nas batalhas. Acreditava-se que a lavanda tinha poder curativo e cicatrizante, além de deixar no local um excelente aroma que auxiliava no relaxamento e aliviava a fadiga e o cansaço. Estudos modernos confirmam que o aroma de lavanda é capaz de propiciar uma sensação de serenidade e calma quando aspergido num determinado ambiente.
Sendo de origem mediterrânea, em nenhum outro clima do mundo o seu cultivo é tão favorável, onde sua propagação vai do sul europeu, norte africano até o leste da Índia. O nomenclatura officinalis quer dizer "medicinal" e desde que os primeiros herbários começaram a ser escritos, as virtudes curativas da planta foram registradas, sabe-se que era prescrita para o alívio de cólicas menstruais, problemas estomacais e renais e também icterícias.
Muito antes dos romanos, os egípcios já conheciam as diversas propriedades da lavanda e já utilizavam seu óleo nos rituais de mumificação. Quando o sarcófago do faraó Tutancâmon (1341-1323 A.C) foi aberto em 1922, o cheiro de lavanda  ainda estava presente na urna funerária, mesmo após milênios de embalsamamento.
Na Idade Média, os monges e freiras católicos a utilizavam como inseticida e era bastante recomendada para eliminar pulgas e piolhos. Por ter ação refrescante, cataplasmas de lavanda eram feitos para tratar queimaduras e picadas de insetos. Historiadores contam que o rei Carlos VI da França exigia que seus travesseiros fossem enchidos com as flores e folhas da planta e o rei Luis XIV adorava banhar-se em água perfumada de lavanda, algo que posteriormente se tornaria um hábito comum na Europa com a criação da Água de Colônia no século XVIII.
O óleo essencial da lavanda é considerado o mais complexo dos óleos, cujos principais elementos que fornecem as fragrância são o linalol e o linalil, substâncias presentes em diversas plantas aromáticas, contudo, a lavanda é a que possui a maior concentração destes terpenos.
O óleo é responsável pela proteção da planta na natureza auxiliando em sua sobrevivência nos períodos mais quentes do verão Mediterrâneo, tornando-a também pouco apetitosa aos predadores. É exatamente este óleo que faz com que as plantações de lavandas sejam tão importantes para a indústria da perfumaria. Os belos campos de lavandas espalhados por terras mediterrâneas,  principalmente os da região da Provença (França), são fundamentais para abastecer a indústria química,  boticária e cosmética. São necessários, cerca de 160 kg de lavandas para a produção de um litro de óleo. Mas para se ter uma ideia do poder deste azeite, esta quantidade é capaz de produzir aproximadamente 600 sabonetes. 
Algo bastante intrigante é  que as lavandas, além de possuirem tanta beleza e tantas qualidades, preferem solos pobres, secos, com poucos nutrientes e muito sol e são exigem poucos cuidados. Mostrando que a Natureza faz brotar beleza nas mais adversas condições.
Particularmente, é de todas os aromas, o meu favorito. Eu utilizo óleos, incensos, aromatizadores e produtos de limpeza a base de lavanda quase que exclusivamente . Para mim, nenhum outro aroma parece purificar e trazer tanto bem-estar.
Benditos sejam esses pobres solos lilases!


Cartões da Provença

 

 

LAVANDAS OU ALFAZEMAS?


Muitos se questionam ao ver um arbusto de lavanda se aquela espécie pode ser também chamada de alfazema. Sim, é muito comum no Brasil chamarem popularmente toda lavanda de alfazema, assim como em Portugal.
Pode-se dizer que toda alfazema é uma lavanda, mas nem toda lavanda é alfazema. Embora muitos possam alegar que a alfazema verdadeira é a Lavandula angustifolia outros dirão que a verdadeira é a Lavandula latifolia e esta é uma questão cuja resposta dificilmente convencerá a todos. Porém, há alguns fatos a serem levados em conta:
Primeiramente o termo alfazema vem do árabe al-khuzâma ou Alhuzaima, que era o nome atribuído à planta que hoje conhecemos como lavanda, mas não se sabe ao certo qual variedade delas. Como a península ibérica foi amplamente povoada pelos denominados "mouros" ou "sarracenos" por quase 800 anos (711 - 1492), é sabido que muitas palavras do aramaico acabaram sendo apropriadas pela língua portuguesa. Algo a ser considerado é que, embora tenha origem árabe, a palavra "alfazema", tanto em sua escrita como na forma falada, não existe em nenhuma outra língua além do português. Desta forma, é mais provável que alfazemas sejam lavandas encontradas em terras portuguesas.
Os catálogos botânicos com suas regras de nomenclaturas e divisões só passaram a ser utilizado a partir do século XVIII, portanto, antes desse período as plantas não eram designadas da forma como vemos hoje, e provavelmente a alfazema já era chamada de alfazema muito antes da taxinomia ser utilizada na botânica.
É importante ressaltar que já foram catalogadas cerca 45 espécies de lavandas e mais de 450 variedades espalhadas pelas regiões da Europa, Africa e Ásia, porém as espécie mais comuns na Península Ibérica são as Lavandula latifolia e as  Lavandula stoechas. A primeira é conhecida popularmente como Lavanda-portuguesa ou Lavanda-espanhola, enquanto a segunda costuma ser chamada em Portugal de Rosmaninho e possui flores muito singulares .
Em terras portuguesas a variedade latifolia é também conhecida como alfazema-brava. Deste modo, por eliminação, tudo leva a crer que a legítima "Alfazema" é mesmo a Lavandula latifolia, já que, até que se prove o contrário, ela é tipicamente lusitana.


Lavanda - Alfazema - Lavandin - Lavanda Francesa e Rosmaninho

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