sábado, 4 de janeiro de 2020

Iroko - A Árvore Orixá

Iroko - A Árvore Orixá
Ao contrário do que dizem, Iroko não é o Orixá do Tempo mas sim está relacionado à uma árvore sagrada africana cujos cultos são diversificados de acordo com as comunidades africanas e suas origens. A relação que existe entre Iroko e o "tempo" é devido a um Orixá da nação Bantu (das regiões de Angola, Congo e Moçambique) denominado Kitembo que foi posteriormente associado a Iroko da nação Iorubá (das regiões da Nigéria, Benin e Togo). Porém, não se trata da mesma deidade, já que o Candomblé de Angola possui muitas diferenças do Candomblé de Ketu.
Milicia excelsa - Iroko Africano
Iroko, embora esteja relacionado a um Orixá especificamente, é mesmo o nome de uma árvore da família Moraceae cujo nome científico é Milicia excelsa. Esta relação sim é congruente, e há conexões entre esta espécie e o Orixá em sua terra de Origem. No Brasil há alguns exemplares de Iroko, até onde se sabe, todos pertencentes a terreiros de Candomblé.
É um tipo de árvore bastante alta, que pode chegar aos 50 metros e que, quando cortada, derrama um latex branco que alguns acreditam ter propriedades curativas, sendo bastante utilizado na medicina popular de algumas regiões da África. Além disso, o povo Iorubá utiliza a madeira de Iroko na confecção de esculturas sagradas que só podem ser esculpidas por artesãos religiosos autorizados à esta prática, pois quaisquer pessoas que não são iniciadas na prática e não conhecem o segredo da árvore sagradas pode acabar atraindo a ira do Orixá..
De acordo com o Babá Zarcel, sacerdote do candomblé e estudioso dos mitos tradicionais Iorubás, em algumas tradições, Iroko não é considerado um Orixá mas sim uma árvore que serve como ponto de culto e local de oferenda à alguns orixás, principalmente à Oluerê,  um orixá caçador (Odé) relacionado à Oxóssi, muitas vezes tido como uma das qualidade de Oxóssi, ligado aos espíritos antigos e também às Iamí Oxorongá (* leia no post "Oxóssi, o dono das matas).
Ou seja, há muita complexidade nos mitos africanos, porém, a relação entre as matas, seus seres místicos, as árvores, as florestas, os  animais e os caçadores estão quase sempre interligados.

Festa de Iroko de Carybé


A GAMELEIRA-BRANCA


Gameleira com "Ojá" - Pano Branco
É sabido que os cultos africanos, uma vez que se instalaram no Brasil, passaram a ser sincretizados e se misturaram tanto às tradições nativas como às do colonizador. Assim, caboclos (indígenas) acabaram sendo cultuados no Candomblé de Angola e santos católicos associados aos Orixás do Candomblé de Ketu, o que acabou também originando a Umbanda. 
Da mesma forma, também as plantas receberam sincretismo. O milho, por exemplo, não é um vegetal original da África, porém é bastante utilizado como comida de santo - como, e em que momento, o milho ingressou nos cultos do Candomblé, é um mistério. Há a possibilidade dele ter sido adentrado aqui no Brasil ou até mesmo ter vindo da África após ele sido levado pelos colonizadores.
Com a árvore de Iroko, que na África é Milicia excelsa, ocorreu o mesmo. Aqui no Brasil, Iroko foi sincretizado e começou a ser cultuado na Gameleira Branca (Ficus doliaria).
Festa de Candomblé - Carybé
A Gameleira é uma planta nativa e bastante comum nas florestas tropicais brasileiras e a escolha desta espécie como substituta para o Iroko africado pode ter ocorrido por algumas semelhanças entre as duas. Ambas são da mesma família de plantas,  Moraeas, há certa semelhanças no formato de suas folhas e na espessura de seu troco e, assim como o Iroko africano, sua madeira é excelente para esculpir, tanto que o nome Gameleira foi dado por ser dela a melhor madeira para a confecção de gamelas (item essencial para os fundamentos do Candomblé, utilizado para diversos fins dentro dos Terreiros).


Gamelas Africanas



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