sábado, 16 de fevereiro de 2019

Ossain - O Senhor das Folhas

Orixá Ossain
Acredito que há algum tempo estou devendo uma postagem que aborde mitos africanos, e muitos têm a impressão de que sou ligado às religiões pagãs européias como o Druidismo e à Wicca. Bem, é notável que minha admiração aos celtas é maior do que quaisquer outras culturas da antiguidade, e meus estudos sempre esteviveram mais voltados aos mitos da Europa antiga, embora aprecie demais outras culturas.
Devo dizer que não tenho religião e, embora tenha sido iniciado há alguns anos numa fraternidade pagã fundada na Irlanda, também não me considero um pagão ou bruxo, ou mago ou quaisquer outras coisas senão um estudioso, curioso e teórico não acadêmico - sem ligação alguma com qualquer culto de qualquer instituição, doutrina religiosa ou filosófica. É claro que admiro muitos deles, assim como discordo de muitos dogmas e fundamentos da maioria deles, mas procuro respeitar pois sei que, para muitos, isto é importante.
Como brasileiro legítimo, sou miscigenado. Tenho ascendência européia e indígena e, provalmente, africana. E tenho muito orgulho desta miscegenação, de um país que agregou tantas culturas e guarda tantas histórias de povos tão diversos, de cores e de culturas tão destintas.
O Brasil foi responsável por manter vivo muitos dos cultos trazidos pelos negros, uma vez que muitas tribos africanas foram extintas nestes séculos de exploração e com elas as suas deidades. O culto aos Orixás vieram com os nossos ancestrais escravos, intrínsecos em suas almas, pois como se diz no Candomblé "Uma vez feito o Orí (cabeça) o Ori será sempre do Orixá". A pessoa passa a viver o Orixá na essencia de toda a energia que esta força traz.
Filha de Ossain
É muito importante salientar aqui que o Orixá é isto: uma força, uma energia. O Orixá não é um espírito humano ou animal, não é uma pessoa desencarnada, não é um encosto e nem baixa em alguém. O Orixá não entra, ele sai, se manifesta de dentro pra fora. Portanto, quaisquer relações destas deidades, com espíritos e entidades é mera falácia. E digo isto porque convivo há anos com pessoas do Candomblé, as quais me ensinaram muito a respeito desta religião e de como são cultuadas estas divindades sagradas. 
Os Orixás estão mais próximos de forças da natureza e se assemelham muito mais aos ritos xamânicos indígenas do que ao espiritismo à umbanda como muitos acreditm. Nas casas de Candomblé, os espíritos (eguns) não são cultuados como acontece nestes outros segmentos espiritualistas.
Para que melhor se compreenda o que significa o Orixá para o Candomblé, pode-se utilizar as seguinte descrição: trata-se de uma energia da natureza, móvel (por isso a música e a dança fazem parte dos rituais), transformadora e misteriosa. 
As pessoas não entram em transe quando "recebem" o Orixá, mas entram em transe quando a força do Orixá é potencializada, através dos cantos e dos ritos. Sob o ponto de vista do Candomblé, ele se revela ativamente, se exterioriza.

A Energia de Ossain

Ossain Humanizado
Iniciei este post tentando explicar esta força chamada Orixá, não porque saiba o que ela realmente é, pois não sou iniciado no rito, mas por convivência com filhos de santo e porque me fascinam estes mitos, principalmente quando estão relacionados à natureza em sua essência.
Falar de Ossain (ou Osanha) é adentrar um tema que muito me fascina, pois ele simboliza a energia das matas e o poder curativo das sementes, das folhas, das raizes, dos caules, e da pele das árvores. Ele é a floresta e o vegetal, é ele a força que guarda o segredo da dose exata que faz uma planta curar ou intoxicar.
Por tais qualidades ele também é chamado de grande médico das matas e alguns o chamam de feiticeiro verde, pois só ele conhece profundamente o "axé" (poder de cura) das folhas.
O Candomblé, assim como outras religiões ancestrais, não é maniqueísta e não divide o Universo em forças do bem e do mal, portanto, os Orixás não são essencias boas ou más. Os Orixás, assim como os deuses gregos, celtas, vikings, entre outros, têm suas qualidades e também os seus "defeitos" (peculiaridades), embora sejam apenas características que têm bastante ligação com a própria Natureza e o Universo. A morte pode ser terrível para alguns e reconfortante para outros, a mesma chuva que faz germinar as sementes pode destruir as plantações, portanto o que é bom ou mau não pode ser colocado numa balança separatista. 
Uma questão que me incomoda em alguns sincretismos é tentar sistemarizar o Orixá nestas condições. Para alguns, Exu é considerado um ser "de esquerda" que muito se assemelha ao demônio cristão, e Oxum é chamada de "mamãe" como se fosse a benevolente Virgem Maria. Mas o mito conta que Exú é o  Orixá que abre os caminhos, que leva a mensagem e é também protetor e Oxum é vaidosa, astuta e abandona o único filho (Logunedé) para viver com Xangô. Logo, Exú pode fazer muito bem e Oxum pode fazer muito mal, dependendo do ponto de vista.

Ossain é a força das plantas

Entrei neste este assunto porque Ossain, assim como todos os outros, é repleto de características próprias - assim como todos os seres humanos, animais, vegetais e tudo que existe no planeta. 
Num dos mitos deste Orixá conta-se que ele nutria certo ressentimento de Orunmilá  (Ifá - o Orixá Oráculo) pois havia sido escravo deste adivinho. Assim sendo, o feiticeiro verde procurava, secretamente, muitas formas de causar infortúnios e transtornos a Ifá. Orunmilá pediu a Xangô (Orixá do Fogo) para que este lhe auxiliasse a descobrir o que estava por trás de tantos tormentos. Xangô aconselhou Olunmirá a fazer um ebó (oferenda) acendendo doze mechas de algodão junto com doze pedras de raio (edum ará) e logo em seguida invocar o poder do fogo. Desta forma, o que estivesse oculto seria revelado.
Ewé
Assim que Orunmilá invocou o fogo, Ossain que andava pelas florestas foi atingido por um raio. A força que caiu sobre ele foi tamanha que mutilou uma de suas pernas. Além de ter sido descoberto, Ossain ficou apenas com um dos membros.
Esta é uma lenda que justifica o Orixá ser representado apenas com uma das pernas e muitos alegam que a figura de  Ossain deu origem ao Saci das lendas Brasileiras. Por ter apenas uma perna, Ossain só pode andar saltando.
Outros dirão que Ossain só tem uma perna pois seu corpo é como uma árvore: seu pé é a raiz, sua perna é o tronco, seus braços são os galhos e seus cabelos são as folhas. Uma interessante forma de assimilar este Orixá com os seres mais proeminentes e importantes das matas. 
Algo interessante em se notar é que aqui no Brasil utilizamos a expressão "Pé" quando queremos designar uma árvore qualquer (pé de manga, pé de maçã, pé de carvalho), como se este vegetal e sustentasse apenas por um pé, assim como Ossain.


O Feiticeiro e o Caçador


Oxossi & Ossain

"Oxóssi vivia com sua mãe Iemanjá e com seu irmão Ogum.

Ogum cultivava o campo e Oxóssi trazia caça da florestas.
A casa de Iemanjá era farta. Mas Iemanjá tinha maus pressentimentos e consultou o babalaô.
O adivinho lhe disse que proibisse Oxóssi de ir caçar nas matas, pois Ossaim, que reinava na floresta, podia aprisionar Oxóssi.
Iemanjá disse ao filho que nunca mais fosse à floresta. Mas Oxóssi, o caçador, era muito independente e rejeitou os apelos da mãe. Continuou indo às caçadas.
Um dia ele encontrou Ossaim, que lhe deu de beber um preparado. Oxóssi perdeu a memória.
Ossaim banhou o caçador com abôs misteriosos e ele ficou no mato morando com Ossaim.
Ogum não se conformava com o rapto do irmão. Foi à sua procura e não descansou até encontrá-lo. Finalmente livrou Oxóssi e o trouxe de volta a casa.
Iemanjá, contudo, não perdoou o filho desobedinete e não quis recebe-lo em casa. Ele voltou para as florestas, onde até hoje mora com Ossaim.
Ogum, por sua vez, brigou com a mãe e foi morar na estrada. 
Iemanjá passou a sentir demais a ausência dos dois filhos que ela praticamente expulsara de casa.
Tanto chorou Iemanjá, tanto chorou, que suas lágrimas ganharam curso, se avolumaram, e num rio (que que se tornou o mar) Iemanjá se transformou."


Iemanjá, Oxóssi e Ossain

* Texto retirado do Livro "Mitologia dos Orixás" de Reginaldo Prandi.

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