terça-feira, 26 de abril de 2022

Papoula - A Flor entre Deus e o Diabo

 

Esta é uma flor capaz de trazer benção e maldição. Isto porque é de seu bulbo que se extrai a seiva para produção da morfina e também da heroina. A morfina é tão poderosa que muitas vezes é a única substância capaz de tratar as dores mais agudas, entretando, é tão viciante que muitos descobriram uma forma de manipular toda uma indústria e trafica-las exatamente pelas maravilhas e dependências que ela causa.
Quando suas pétalas caem, a cápsula que permanece (fruto) guarda as sementes que darão vida à novas plantas, entretanto, em sua fase final de amadurecimento, o latex que ela produz tem um efeito altamente narcótico para os que conhecem tais segredos - também chamado de ópio.
O ópio é a base da sagrada morfina, codeína e tebaína e também da terrível heroína. Estas substâncias possuem alcaloides capazes de aliviar a dor, sedar, dar sensações de bem-estar  e causar abstinência.
Sua origem é incerta, embora papoulas ocorram frequentemente na na faixa do oriente que vai da Turquia até a Tailandia e há ampla variedade de espécies, sendo as mais comuns a papaver orientale (papoula do oriente), papaver rhoeas (papoula comum) e a papaver sonniferum (papoula do ópio). Como o próprio nome já sugere, "sonniferum", esta espécie é a mais conhecida e seus efeitos promovem relaxamento e letargia como se o indivíduo estivesse sonolento. No oriente era comum seu uso mascado ou através da inalação (fumo), já no ocidente o uso mais difundido foi em pó (heroína) que era diluído em água e ingerido e posteriormente através de injeção intravenosa.
A heroina foi descoberta na Alemanha na segunda metade do século XIX e ganhou este nome exatamente pelo fato da substância fazer com que os usuários se sentissem  heróicos - a principio foi comercializada como substituta da morfina por, aparentemente, ser "menos viciante". Posteriormente, descobriu-se que causava tanta dependência quanto qualquer outro opiácio e esse narcótico se tornaria um pesadelo para diversas nações na guerra contra as drogas.
Existem registros médicos gregos que remontam 1.500 A.C, mas acredita-se que em 5.000 A.C muitos povos já conheciam os poderes do ópio. Sabe-se que por volta de 3.500 A.C, os mesopotâmios já cultivavam papoulas para fins ritualisticos e medicinais. Partes das flores eram utilizada para o alívio da dor, mas era o efeito anestésico o mais buscado - muitas cirurgias puderam ser realizadas no mundo antigo graças às substâncias encontradas nas papoulas. Acredita-se que os gregos já conheciam métodos avançados de uso tanto da codeína quanto da morfina.
Hipnos e os Bulbos de Papoulas
A palavra Morfina deriva de Morfeu, o deus grego dos sonhos. Morfeu tinha a habilidade de  metamorfosear-se e aparecer nos sonhos humanos, ele era filho de Hipnos, o deus do sono (de onde advém a expressão hipnose). Hipnos tinha um irmão gêmeo, Tâmato, o deus da morte, e ambos viviam no submundo governado por Hades. Os antigos gregos diziam que Hipnos utilizava papoulas que cresciam nos Campos Elísios para induzir os mortais ao sono.
O uso das papoulas foi bastante difundido no mundo antigo, mas sua periculosidade também era notada, há documentos arqueológicos que revelam que muitos especialistas já consideravam os efeitos colaterais do ópio. O médico Diágoras, por exemplo, caracterizou o uso indiscriminado da substância extraída da papoula como "possivelmente letal". 
A toxidade, o potencial viciante, as euforias e as alucinações provocadas pelo uso destes alcalóides já eram conhecidas muito antes dos tempos modernos, assim como o risco de morte. Os antigos gregos já diziam que Hipnos caminhava sempre ao lado de Tâmato.





BELLUM OPIUM


 
Uma grande população significa um grande mercado consumidor e a Grã-Bretanha sabia do potencial chinês para consumir seus produtos, uma vez que ela havia se tornado um dos grandes comerciantes marítimos após a Revolução Industrial (XVIII). Mas a cultura chinesa sempre foi demasiado tradicional, e pouco interesse tinha em produtos ingleses - ao contrário do Brasil Colônia que comprava da Grã-Bretanha até patins de gelo para pendurar na parede (isso não foi uma ironia).
A china produzia há seculos um dos tecidos mais finos e mais apreciados pela nobreza inglesa (a seda) e as mais belas xícaras de porcelana - utilizadas no famoso chá das cinco - eram as de origem chinesa. Isso sem contar na própria erva para o chá que - embora soe bastante britânico - também provinha da Ásia. 
Portanto, a China era um grande exportador que pouco se importava com produtos ingleses. Os navios britânicos iam vazios e voltavam cheios e isso não soava lucrativo (causando um défict comercial no país). Entretanto, havia um país vizinho que produzia algo que os alguns comerciantes chineses tinham interesse - fruto da papoula - o ópio.
Ao contrário dos chineses, a India apreciava muitos produtos ingleses e estava disposta negociar. Os britânicos então formularam uma excelente estratégia de combate ao déficit comercial: os navios saiam repletos de produtos ingleses rumo à India e, uma vez esvaziados, eram novamente preenchidos de ópio indiano que seguiria rumo à China. 
Guerra do Ópio
Já haviam ordens imperiais que proibiam a comercialização do ópio desde o século XVIII, mas os ingleses sabiam do potencial viciante da droga e era uma questão de tempo para que a necessidade de consumo falasse mais alto e a compra tivesse que ser legalizada (assim pensavam os britânicos). Não existia ainda o conceito de "narcotráfico" como vemos hoje e o governo chinês só se deu conta que havia um problema de saúde pública quando parte considerável de sua população já estava altamente viciada e dependente do ópio.
Bem, quando a China compreendeu que o problema tinha origem na companhia marítima inglesa, cortou relações comerciais e foi então que em 1839 a Grã-Bretanha declarou guerra exigindo a abertura dos portos e o livre comércio. Em 1842 é assinado o "Tratado de Nanquim" onde a China abre seus portos e ainda entrega a ilha estratégica de Hong Kong que permaneceu sob o domínio britânico por 100 anos. 
Com soldados chineses mal-equipados e viciados, a China não foi párea frente a uma potência marítima como a Inglaterra - a Guerra do Ópio já estava perdida. No fim do século XIX a China era uma nação decadente onde mais de 1/4 da população masculina era usuária de ópiáceos.
Talvez essa seja uma parte da história da China que o país gostaria de apagar, entretanto traz como exemplo o que uma flor que cresce no paraíso e também no inferno pode fazer.




domingo, 23 de janeiro de 2022

Iamis Oxorongás - As Bruxas da Jaqueira

Reza a lenda que pronunciar o nome Iami Oxorongá (Iyami Osorongá) é algo que deve ser evitado, isso porque são entidades ancestrais poderosas e obscuras cujo resultado que isso pode gerar é imprevisível. Elas são conhecidas também como mulheres-pássaros e o culto, mesmo dentro das casas de candomblé, é reservado a poucos iniciados e é envolto em segredose preceitos sigilosos, já que se trata de uma força poderosa que, segundo os religiosos de matriz africana, pode causar danos, muitas vezes, irreversíveis aos que não são capazes de lidar com elas - inclusive com a morte. Pois, como é dito: "a ira das mães ancestrais é implacável!".
No Brasil, o culto às Iamis nunca foi muito difundido porque não se trata de um Orixá, mas de entidades de origem africana ligadas à eles - desta forma houve pouco sincretismo com a Umbanda. Normalmente elas estão conectadas à Oxum, pois, segundo a lenda: "Oxum é a dona do pátio onde as senhoras põem seus ovos". 
Na Áfica, seu rito está diretamente ligado à uma árvore conhecida como Apaocá, ou Mogno Africano, contudo essa espécie não foi introduzida no Brasil antes de 1980 e os negros escravizados, que desejavam cultuar as mães aciãs, a substituiram pela jaqueira (Artocarpus heterophyllus) que havia sido trazida da Ásia para o Brasil pelos colonos portugueses. Jaca é uma variação de chakka, que é o nome dado à esta fruta pelos povos do sul da Índia e da Malásia.
Uma vez que essa espécie foi escolhida e designada a árvore das Iyamis africanas, ela passou a ser chamada de Tapónurin.
Os motivos pelos quais o Mogno da África foi substituído pela Jaqueira indiana é realmente um mistério, porém, quando  nossos ancestrais negros escolheram esta espécie para o culto às Iyamis, todas as jaqueiras, onde oferendas foram dedicadas, passaram por uma sacralização litúrgica onde se o axé foi assentado (energia) antes de qualquer rito ser iniciado. Dizem, portando, que as Iyamis tomaram esta espécie para sí, passaram a habitar nas jaqueiras e até hoje esta árvore é associada à essas feiticeiras.




Cuidado com a Jaqueira!



Tapónurin
Existe a crença de que não se deve permanecer, também evitar passar, em baixo das jaqueiras, pois nelas habitam as bruxas e alí é um território restrito aos poucos aceitos, normalmente do sexo feminino e iniciados nos segredos. Isso porque, de acordo com o mito, as Yiamis fizeram um pacto de nunca engravidarem e é por esse motivo que rechaçam homens.
O mito conta que o pacto foi uma vez quebrado quando uma delas (Iyá NBanba), se apaixonou por Okô, orixá da agricultura, e acabou cedendo aos seus encantos. Desta relação nasceu Oxóssi que, embora tenha sido criado por Iamanjá, é na verdade filho de Apaocá - ou seja, Odé é filho de uma bruxa. 
Como o pacto entre as Iyamis foi quebrado por causa de um homem, a cólera que sentem pelo sexo masculino é ainda maior e, por esse motivo, todo homem precisa ter ainda mais cautela ao prestar oferendas à elas, devendo tomar extremo cuidado com as jaqueiras.
Segundo Pierre Verger, as folhas do pé-de-jaca são utilizadas em muitos banhos e assentamentos no candomblé, entretando, o fruto deve ser evitado pelos iniciados da religião, isso porque é a própria Apaocá reside na jaqueira e isso seria uma ofensa à feiticeira mãe de Odé.
Bem, dessa forma é possível compreender a sacracidade dessas árvores para os povos de origem Yourubá no Brasil e, dentre tantas quizilas que envolvem os mitos ao redor delas, algo é realmente compreensível: não é mesmo auspicioso e nem recomendável ficar em baixo de uma jaqueira.  São espécies de grande porte e seus frutos são os maiores dentre todas as árvores do planeta, quanto mais alto estiverem, mais arriscado se torna quando eles caem - e a queda é iminente. Portanto, não é difícil, associar esta àrvore às senhoras que trazem à morte consigo. 
Com muito respeito às senhoras e por questões de segurança, não se deve arriscar ficar em baixo de um Tapomurìn.



Taponurín é o nome dado à Jaqueira (Yorubá)



terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Yabás - As Senhoras das Àguas

 


Desde tempos imemoriáveis a água está ligada ao feminino. Nossos antepassados mais antigos associavam os rios, as fontes, as nascentes e o mar à grande mãe e à deusa, e poucas tradições explicam tão bem essa associação quanto as religiões africanas.

As Yabás, mães do candomblé, são os orixás femininos, todos eles ligados às águas. A água é a sagrada fonte da vida. Até hoje, quando se busca "vida" em outro planeta, a primeira coisa que se procura é àgua em seu estado líquido (água fluída e em movimento), isso porque esse elemento é fundamental para que algo prospere, cresça, nasça ou se desenvolva. 

Nossos ancestrais primordiais (originários da África) viam as mulheres como fontes de vida pois elas podiam gerar novos indivíduos em seus ventres. Mesmo não compreendendo como isso ocorria, a mulher era capaz de dar a luz a um novo ser, algo que o homem não podia. Isso explica o motivo pelos quais as primeiras deidades que se têm  notícias são todas femininas. 

A Deusa Mãe veio muito antes do Deus Pai, e isso não é nenhuma novidade para pesquisadores, historiadores, arqueólogos, etc. E o motivo é simples: a mãe é a geradora, é em seu ventre que se ela guarda o mistério da vida. Todos nós fomos gerados em uma placenta de água que se rompeu quando já estávamos prontos. Ao nascer o filho busca o seio, o leite (o líquido) que o alimenta.

A mãe é deificada pelo filho, para a criança não existe um "Deus" (pois não foi o pai quem o carregou e nem o amamentou) a relação da criança é basicamente materna, pois é dela que depende a sua sobrevivência. Se há algo que se aproxima do divino é a "mãe".

A África mantém tradições primitivas (e não digo de forma pejorativa) onde perduram antigas idéias de nossos antepassados que hoje podem ser compreendidas através de associações primordiais. Nas religiões africanas a àgua só poder ser feminina, portanto todos os orixás ligados à ela são essencialmente femininos. De modo bastante interessante, os mitos desta religião ensina que as transformações e a forma de manifestação da água estão ligados à um Orixá diferente, e é isto o que mais me encanta nestas peculiaridades.

No Candomblé (especialmente os de tradição Ketu) as Yabás (mães) são: Nanã, Oxum, Obá, Ewá, Iansã e Iemanjá e todas elas estão diretamente ligadas às àguas. Há apenas dois orixás também "masculinos" que têm associação a este elemento, são eles: Oxumaré (orixá do arco-iris) e Logun-Edé (filho de Oxum, que vive metade do ano com a mãe e metade do ano com o pai Oxóssi) estes dois orixás entretanto, são considerados meio femininos, chamados também de andróginos. Tanto Oxumaré como Logun são o que se denomina "metá-metá", ou seja: metade masculino e metade feminino.

As Yabás têm características e aspectos de acordo com o seu domínio e é desta forma que se explica as diversas faces destas deidades. Dessa forma importante explanar de que forma esses orixás se mostram e quais as relações de cada uma delas com a àgua.

Em minha concepção tudo se inicia com Nanã, pois ela é mãe ancestral, ela é o orixá dos mangues, dos pântanos, dos locais alagadiços onde o barro está sempre presente. Ela é representada como a "Velha", e essa associação é bastante similar ao deus pai criador, aquele que criou o homem através do barro. É do barro que ele esculpe o primeiro ser vivo à sua imagem e semelhança, pois a terra necessita da umidade provinda da água para ser moldada. Nanã é a velha sábia, calada, instrospectiva, serena e capaz de comandar os Eguns (mortos), pois ela é a avó (nana) feiticeira que não teme a morte, pois compreende que tudo que nasceu está destinado a se findar. Ela é mãe de Obaluaiê (cura), Iroko (árvore), Ossaim (plantas), Oxumaré (arco-iris) e Ewá (neblina).

OXUM
A água dos rios que flui mansamente é Oxum, a senhora das águas doces, dos lagos, espelhos d´água e cachoeiras. Um de seus símbolos é o espelho porque Oxum é a água onde é possível enxergar o reflexo. Ela é a orixá do ouro porque são nas margens rasas e serenas que o ouro é facilmente encontrado. Oxum foi associada à Iara dos mitos amerindios e embora, seja a dona da fertilidade, é mãe de apenas um filho: Logunedé, o orixá andrógino que reside ora na água profunda e misteriosa ora nas matas como caçador com o seu pai Odé (Oxóssi). O símbolo de Logunedé é um peixe porque quando está com a mãe ele habita no fundo das águas doces.

Quando o fluxo da água aumenta e o rio de torna caudaloso, perigoso, revolto, ele se transforma em Obá, uma Orixá guerreira. Assim como o rio turbulento, Obá é aquela que transpõe obstáculos através da força. Ela é uma Orixá associada também agressividade, o que faz com que seus filhos tenham fama de impulsivos e impetuosos.

Uma vez que água se transforma em neblina ela é representada por Ewá. Ela é o nevoeiro que também simboliza o mistério, é a água ascendente que se evapora, por isso é considerada a dona da intuição. Ewá é a mulher em seu estado pueril e casto. Assim como a neblina, ela não pode ser possuída pois se dissipa. Ewá é a única filha de Nanã e, assim como a mãe, são orixás que não devem ser feitos na cabeça de homens - no quarto destes dois orixás, nas Casas de Santo, também não é permitida a entrada de homens. Ewa é vestal que se mantém intocada, guardando em sí o mistério da vida e, na maioria dos candomblés, somente mulheres virgens podem ser consagradas à Ewá. Ela água em seu estado gasoso que sobe e formam as nuvens, aquelas que trarão as chuvas.

E quando as gotículas de água se encontram no céu e formam o arco-iris, é Oxumaré que se mostra, irmão de Ewá - pois é ela quem o ajuda a se formar. Oxumaré é quem transporta a água do céu para a terra. Oxumaré é a também a garoa, a chuva fina, a água que o desce do céu no sereno. Oxumaré é considerado por grande parte dos candomblés um orixá metá-metá, que não pode ser considerado nem homem e nem mulher, mas há tradições que dizem que ele é irmão gêmeo de Ewá, por isso tem ligação com a água. Ewá compartilha portanto com o irmão seu domínio sobre este elemento. 


Iansã - Senhora das Tempestades
Se a nuvem tiver densa, escura e a chuva cair de modo torrencial, a água está sob a forma Iansã, Oyá, senhora das tempestades e dos raios. Ela é a tempestade, a tormenta que cai dos céus não somente para molhar a terra, mas para alagar e destruir. Assim como a mãe, os filhos de Iansã são considerados os mais tempestuosos de todos, pois a passividade e o pacifismo não são o forte deste Orixá. Ela é também representada pelo Búfalo-Africano, um dos animais mais agressivos do continente. Iansã é esposa de Xangô, o orixá do fogo e dos trovões. Assim como Obá, Oyá também é representada como guerreira, uma vez que as tempestades, ao contrário da chuva mansa, causam destruições por onde passam.

As águas de Iansã quando caem, podem se misturar à terra e se tornar Nanã (lama), se mesclar aos lagos e se tornar Oxum (espelhos d´água)  ou se unir em correntes que alimentam Obá (águas turbulentas). Mas ao cair no mar ela se transforma em Iemanjá, a senhora das águas salgadas. Iemanjá é a rainha dos Oceanos e rege as agitadas ondas e também as maresias, das profundezas até a mais suave das espumas. Iemanjá é a deusa mãe por excelência, afinal ela é, de todas as Iabás a que têm mais filhos. São eles: Xangô (fogo), Ogum (guerra), Oxóssi (matas), Exú (caminhos), Okô (agricultura), Obá, Iansã e Oxum. É também o orixá mais lembrado e culturado no Brasil, inclusive entre pessoas que não são do Candonblé.

A água em seu estado sólido, como gelo não é comum na África, muito menos nos países onde grande parte destes mitos é encontrado, isso tende a explicar porque a àgua em seu estado sólido não é representada por uma Yabá. Contudo, se buscarmos em países do hesmisfério norte encontraremos diversas lendas de deidades e entidades femininas que têm poder sobre a neve. Mas este é um tópico para um novo post. 

Axé!



quinta-feira, 22 de julho de 2021

A Rosa de Saron - O Hibisco da Síria


Rosa de Saron
Há uma famosa passagem na Biblia no Livro dos Cânticos onde, cp 02 - vs 01, está escrito : " Eu sou a Rosa de Saron, o Lírio dos Vales". Aqui no Blog já escrevi sobre o lírio e seu simbolismo (ver post: "A Palma e o Lirio - Pureza e Martírio")  e, há algum tempo atrás, conversando com um conhecido evangélico o mesmo me perguntou se eu já ouvira falar sobre a Rosa de Saron pois ele tinha curiosidade em saber de qual rosa se tratava. Bem, eu não pude responder à pergunta dele, embora tenha dito o que eu sabia sobre isto: a Rosa de Saron é uma flor, mas não é uma Rosa propriamente.
E é exatamente isto, embora haja muitos hinos cristão exaltando a Rosa de Saron, inclusive como uma forma de ligação com o próprio Cristo, a maioria deles não sabem que a escritura não se refere à uma rosa verdadeira.
Primeiramente é necessário ressaltar que a Rosa de Saron como está descrita no texto poderia muito bem ser substituída por Flor de Saron, já que não se trata de uma rosácea (rosaceae). Já Saron, ou Sharon é uma planicie localizada ao norte de Israel que na atiguidade era conhecida por seu solo fértil onde muitas plantas brotavam. Por alí passava a Via Maris, uma rota que conectava a Mesopotâmia ao Egito e no período romano esta região era chamada de "drymus" que quer dizer "floresta, e ela é citada em diversas passagens bíblicas já que se trata de uma área conhecida por sua bela natureza deste tempos remotos.

Mapa de Israel


A ROSA NÃO É UMA ROSA


Pelo menos quando se trata da designada "Rosa de Saron", a Rosa não é uma Rosa mas sim um Hibisco da Siria.
A pergunta que não quer calar é: Por que a rosa de Saron é um Hibisco?
Bem, a resposta exata eu não tenho e duvido que alguém a tenha concretamente.
É preciso lembrar que as rosas, plantas conhecidas principalmente por seu caule cheio de espinhos, não são originárias da região do Oriente Médio. Sabe-se que a maioria delas têm origem na China, onde há uma grande variedade de espécies e cultivares. 
Embora muitos registros afirmem que o Óleo de Rosas tenha surgido na Antiga Pérsia há aproximadamente 2.500 anos, possivelmente elas foram introduzidas na região após o desenvolvimento do sistema hídrico (canais de irrigação que auxiliavam no cultivo) pelos mesopotâmios. Vale ressaltar que os Jardins da Babilônia do Rei Nabucodosor II - umas das sete maravilhas do mundo antigo - era repleto de espécies ornamentais exóticas há exatamente 2.500 anos atrás, grande parte trazidas de outras regiões da Ásia e da Eurásia, o que corrobora com esta hipótese.
O nome Hibiscus syriacus (malvaceae) faz menção à Siria, região onde a espécie foi primeiramente catalogada, embora não se tenha muita certeza se esta área corresponde mesmo ao berço deste tipo de hibisco. Sabe-se que a maioria dos hibiscos é de origem chinesa (Hibiscus rosa-sinensis) e do leste asiático, mas há variedades africanas como o Hibiscus sabdariffa (um dos mais bonitos na minha opinião) e também havaianas. 
Assim como Israel - onde hoje se localiza  a região de Sharon - a Siria também faz parte do Oriente Médio, compartilhando o mesmo clima e as mesmas espécies botânicas. Portanto, se haviam hibiscos na Siria, muito naturalmente haviam as mesmas variedades em Israel. E mesmo que não tenhamos informações precisas sobre cultivares na Idade Antiga, se o solo era mesmo fértil na planíce de Saron, os hibiscos certamente não teriam grandes problemas com a adaptação.
Por falar em adaptação, hoje as roseiras são cultivadas em quase todos os cantos do globo depois de passarem por séculos de aclimatação e desenvolvimento de variedades mais resistentes e adaptadas, entretanto é muito provável que  as roseiras não fossem comuns em Israel quando Salomão escreveu o Cântico dos Cânticos (Cantares).
É certo que existem hibiscos de diversos tipos, mas o legítimo "Sharon Rose" é o Hibisco da Síria, cuja variedade de folhas dobradas muito se assemelham às rosas.
Bem, talvez nunca tenhamos a resposta concreta sobre qual flor Salomão se referia quando escreveu seu poema, mas estou certo de que uma rosa nem sempre é uma rosa.



Hibisco da Siria




Instagram Vale do Mago


sexta-feira, 7 de agosto de 2020

ENTS - As Árvores Falantes de Tolkien



Há anos desejava escrever sobre este tema, porém, para que fosse relevante, sempre acreditei que era necessária uma pesquisa detalhada, afinal, compreender a obra de Tolkien é algo que requer cuidado e atenção. Até mesmo os leitores mais assíduos e amantes de mitologias podem se equivocar quando o assunto é o universo criado por ele.
J. J. R. Tolkien é um mestre acima de quaisquer contestações e eu sempre me senti muito leigo para ousar escrever algo desconhecendo a fundo seu mundo e suas criações. São muitos livros, apêndices, cartas e muitas histórias com minúcias que até hoje são estudadas por sérios pesquisadores e estudiosos de suas obras - inclusive dentro das grandes Universidades e Academias do Mundo. 
Tolkien criou e descreveu uma terra, com mapas, rios, vales e montanhas e uma riqueza de detalhes que nunca havia sido feito antes. Em seu mundo criou seres e deu a eles aparência física e nomes peculiares, e o que é mais fantástico, desenvolveu belos idiomas, com verbos, substantivos e plurais específicos. Não existem palavras o bastante para definir o que representa Tolkien para a literatura, para os mitólogos, linguistas e para os apaixonados por histórias fantásticas.
É claro que dentro da Terra Média há muitos personagens que me atraem e é evidente que os Ents são meus favoritos, por razões que dispensam grandes esclarecimentos.



QUEM SÃO OS ENTS?


Ent

Eu era adolescente quando vi o filme "As Duas Torres" pela primeira vez e confesso que, embora tivesse gostado muito mais da "Sociedade do Anel", as cenas em que apareciam aquelas enormes árvores falantes que andavam e lutavam, me davam arrepios e eu pensava: "que criação magnífica!". Na época eu não tinha lido nenhum dos livros e todo aquele Universo de "O Senhor dos Anéis" ainda era muito novo para mim. 
Embora me considere um fã, não sou nenhum estudioso assíduo de Tolkien e tampouco um grande conhecedor de todas as suas obras, apesar de quase tudo em sua vida e criação me fascinar. Não obstante, me dediquei à estudar os Ents e às árvores da Terra Média há algum tempo e acredito que hoje posso ousar falar um pouco destes seres fabulosos. Eu realmente acredito que Tolkien tenha se inspirado nos homens -verdes (Green-Man) ao criar os Ents, pois é sabido que esta figura está intimamente ligada ao folclore da Grã-Bretanha. Talvez ele vislumbrasse como seriam os corpos daquelas cabeças foliates, e o que diriam se pudessem falar.
É sabido que Ent vem do inglês antigo "eoten" que quer dizer gigante, e Tolkien provavelmente os criou pensando nestes seres como grandes árvores. Segundo Tolkien, os ents possuiam "at least fourteen foot hight", ou seja, pelo menos quatorze pés de altura, que, ao transformarmos em metros, corresponde à 4,2m. Grandes quando comparados aos hobbits e humanos, mas longe de ser árvores gigantes,  já que um Carvalho pode chegar aos 40 metros de altura.
A primeira aparição de um Ent ocorre no capítulo IV do livro "As Duas Torres" onde o título Barbárvore faz menção ao protagonista do episódio em que os hobbits Merry e Pippin são abordados por aquele ser que parecia uma mescla de homem e troll. Era coberto de uma espécie de casca verde cinzenta e possuia braços, mãos, pernas, pés e barbas, de onde vem seu apodo "Barbárvore" ( em inglês é chamado de "Treebeard" - Árvore Barbada ). Tinha olhos solenes e penetrantes e possuia uma voz profunda como um instrumento de sopro muito grave
O Homem-Verde
Segundo a descrição de Tolkien, estar diante daquele Ent era como ter a sensação de ver um poço de memórias cujas eras ele carregava. Seu nome era Fangorn, o mesmo nome dado à floresta onde se encontrava, o que leva a crer que aquele local tenha sido nomeado como se fora a "Floresta de Fangorn", ou seja, cujo dono era o próprio Banbárvore.
De acordo com o próprio Fangorn restavam na Terra Média, além dele, apenas mais dois dos primeiros Ents cujos nomes ele diz ser Finglas (Mecha-de-Folha) e Fladrif (Casca-de-Pele). Finglas havia ficado "arvoresco" e Fladrif refugiou-se nas colinas após ser ferido pelos Orcs e fora viver com as Bétulas. Contudo, muitos outros Ents aparecem na história e são descritos tão diferentes um dos outros como as árvores são entre elas. Alguns Ents eram robustos e lembravam carvalhos (assim como Barbárvore) outros se pareciam com freixos e eram altos, eretos e cinzentos. Há também os que se assemelhavam às castanheiras, com pernas curtas e grossas mas os mais altos deles lembravam mesmo os grandes pinheiros. Porém, mesmo que diferentes fisicamente, todos tinham a mesma expressão lenta, firme e pensativa - como uma árvore costuma ser.
Conforme diz "O Senhor dos Anéis" os Ents não eram árvores, mas sim seres protetores das árvores e  semelhantes à elas. Eram os mais antigos habitantes da Terra Média e Barbárvore o mais velho destes seres - segundo Gandalf, a criatura mais longeva que caminhava sob o sol .
Apesar de parecerem um tanto amistosos no filme, o livro é claro ao se referir o quão temida era a Floresta de Fangorn, onde poucos ousavam adentar. "Barbárvore é perigoso" - diz Gandalf - "porém gentil e sábio". 
Eu acredito que os Ents podem ser entendidos não somente como seres fantásticos, mas uma representação de como seriam as árvores se estas pudessem falar e se defender dos machados e serras que as destroem. Sim, seriam perigosas, e com toda razão. Entretando, são muito gentís, generosas e sábias, basta observar como se comportam diante dos homens que há tantos séculos lhes desrespeitam.
Bem, de toda forma algo que Tolkien nos ensina é que elas estavam aqui antes de nós e possivelmente estarão quando nós não mais estivermos. Assim, sabiamente desprezam nossos comportamentos, afinal somos só mais um dos seres que elas verão passar.



Abaixo segue trecho do audiobook referente ao capítulo IV de "O Senhor dos Anéis - As Duas Torres" que narra o momento em que Barbárvore se mostra aos Hobbits e conta a sua história.








segunda-feira, 1 de junho de 2020

Lavandas ou Alfazemas? Eis a Questão


Lavandula Officinalis
O nome lavandula deriva do Latim laavandarius, de onde provém o verbo lavar. Sabe-se que essa planta era utilizada nos antigos banhos romanos pelos soldados que as acrescentavam na água para lavar as feridas adquiridas nas batalhas. Acreditava-se que a lavanda tinha poder curativo e cicatrizante, além de deixar no local um excelente aroma que auxiliava no relaxamento e aliviava a fadiga e o cansaço. Estudos modernos confirmam que o aroma de lavanda é capaz de propiciar uma sensação de serenidade e calma quando aspergido num determinado ambiente.
Sendo de origem mediterrânea, em nenhum outro clima do mundo o seu cultivo é tão favorável, onde sua propagação vai do sul europeu, norte africano até o leste da Índia. O nomenclatura officinalis quer dizer "medicinal" e desde que os primeiros herbários começaram a ser escritos, as virtudes curativas da planta foram registradas, sabe-se que era prescrita para o alívio de cólicas menstruais, problemas estomacais e renais e também icterícias.
Muito antes dos romanos, os egípcios já conheciam as diversas propriedades da lavanda e já utilizavam seu óleo nos rituais de mumificação. Quando o sarcófago do faraó Tutancâmon (1341-1323 A.C) foi aberto em 1922, o cheiro de lavanda  ainda estava presente na urna funerária, mesmo após milênios de embalsamamento.
Na Idade Média, os monges e freiras católicos a utilizavam como inseticida e era bastante recomendada para eliminar pulgas e piolhos. Por ter ação refrescante, cataplasmas de lavanda eram feitos para tratar queimaduras e picadas de insetos. Historiadores contam que o rei Carlos VI da França exigia que seus travesseiros fossem enchidos com as flores e folhas da planta e o rei Luis XIV adorava banhar-se em água perfumada de lavanda, algo que posteriormente se tornaria um hábito comum na Europa com a criação da Água de Colônia no século XVIII.
O óleo essencial da lavanda é considerado o mais complexo dos óleos, cujos principais elementos que fornecem as fragrância são o linalol e o linalil, substâncias presentes em diversas plantas aromáticas, contudo, a lavanda é a que possui a maior concentração destes terpenos.
O óleo é responsável pela proteção da planta na natureza auxiliando em sua sobrevivência nos períodos mais quentes do verão Mediterrâneo, tornando-a também pouco apetitosa aos predadores. É exatamente este óleo que faz com que as plantações de lavandas sejam tão importantes para a indústria da perfumaria. Os belos campos de lavandas espalhados por terras mediterrâneas,  principalmente os da região da Provença (França), são fundamentais para abastecer a indústria química,  boticária e cosmética. São necessários, cerca de 160 kg de lavandas para a produção de um litro de óleo. Mas para se ter uma ideia do poder deste azeite, esta quantidade é capaz de produzir aproximadamente 600 sabonetes. 
Algo bastante intrigante é  que as lavandas, além de possuirem tanta beleza e tantas qualidades, preferem solos pobres, secos, com poucos nutrientes e muito sol e são exigem poucos cuidados. Mostrando que a Natureza faz brotar beleza nas mais adversas condições.
Particularmente, é de todas os aromas, o meu favorito. Eu utilizo óleos, incensos, aromatizadores e produtos de limpeza a base de lavanda quase que exclusivamente . Para mim, nenhum outro aroma parece purificar e trazer tanto bem-estar.
Benditos sejam esses pobres solos lilases!


Cartões da Provença

 

 

LAVANDAS OU ALFAZEMAS?


Muitos se questionam ao ver um arbusto de lavanda se aquela espécie pode ser também chamada de alfazema. Sim, é muito comum no Brasil chamarem popularmente toda lavanda de alfazema, assim como em Portugal.
Pode-se dizer que toda alfazema é uma lavanda, mas nem toda lavanda é alfazema. Embora muitos possam alegar que a alfazema verdadeira é a Lavandula angustifolia outros dirão que a verdadeira é a Lavandula latifolia e esta é uma questão cuja resposta dificilmente convencerá a todos. Porém, há alguns fatos a serem levados em conta:
Primeiramente o termo alfazema vem do árabe al-khuzâma ou Alhuzaima, que era o nome atribuído à planta que hoje conhecemos como lavanda, mas não se sabe ao certo qual variedade delas. Como a península ibérica foi amplamente povoada pelos denominados "mouros" ou "sarracenos" por quase 800 anos (711 - 1492), é sabido que muitas palavras do aramaico acabaram sendo apropriadas pela língua portuguesa. Algo a ser considerado é que, embora tenha origem árabe, a palavra "alfazema", tanto em sua escrita como na forma falada, não existe em nenhuma outra língua além do português. Desta forma, é mais provável que alfazemas sejam lavandas encontradas em terras portuguesas.
Os catálogos botânicos com suas regras de nomenclaturas e divisões só passaram a ser utilizado a partir do século XVIII, portanto, antes desse período as plantas não eram designadas da forma como vemos hoje, e provavelmente a alfazema já era chamada de alfazema muito antes da taxinomia ser utilizada na botânica.
É importante ressaltar que já foram catalogadas cerca 45 espécies de lavandas e mais de 450 variedades espalhadas pelas regiões da Europa, Africa e Ásia, porém as espécie mais comuns na Península Ibérica são as Lavandula latifolia e as  Lavandula stoechas. A primeira é conhecida popularmente como Lavanda-portuguesa ou Lavanda-espanhola, enquanto a segunda costuma ser chamada em Portugal de Rosmaninho e possui flores muito singulares .
Em terras portuguesas a variedade latifolia é também conhecida como alfazema-brava. Deste modo, por eliminação, tudo leva a crer que a legítima "Alfazema" é mesmo a Lavandula latifolia, já que, até que se prove o contrário, ela é tipicamente lusitana.


Lavanda - Alfazema - Lavandin - Lavanda Francesa e Rosmaninho




Instagram Vale do Mago

sábado, 4 de janeiro de 2020

Iroko - A Árvore Orixá

Iroko - A Árvore Orixá
Ao contrário do que dizem, Iroko não é o Orixá do Tempo mas sim está relacionado à uma árvore sagrada africana cujos cultos são diversificados de acordo com as comunidades africanas e suas origens. A relação que existe entre Iroko e o "tempo" é devido a um Orixá da nação Bantu (das regiões de Angola, Congo e Moçambique) denominado Kitembo que foi posteriormente associado a Iroko da nação Iorubá (das regiões da Nigéria, Benin e Togo). Porém, não se trata da mesma deidade, já que o Candomblé de Angola possui muitas diferenças do Candomblé de Ketu.
Milicia excelsa - Iroko Africano
Iroko, embora esteja relacionado a um Orixá especificamente, é mesmo o nome de uma árvore da família Moraceae cujo nome científico é Milicia excelsa. Esta relação sim é congruente, e há conexões entre esta espécie e o Orixá em sua terra de Origem. No Brasil há alguns exemplares de Iroko, até onde se sabe, todos pertencentes a terreiros de Candomblé.
É um tipo de árvore bastante alta, que pode chegar aos 50 metros e que, quando cortada, derrama um latex branco que alguns acreditam ter propriedades curativas, sendo bastante utilizado na medicina popular de algumas regiões da África. Além disso, o povo Iorubá utiliza a madeira de Iroko na confecção de esculturas sagradas que só podem ser esculpidas por artesãos religiosos autorizados à esta prática, pois quaisquer pessoas que não são iniciadas na prática e não conhecem o segredo da árvore sagradas pode acabar atraindo a ira do Orixá..
De acordo com o Babá Zarcel, sacerdote do candomblé e estudioso dos mitos tradicionais Iorubás, em algumas tradições, Iroko não é considerado um Orixá mas sim uma árvore que serve como ponto de culto e local de oferenda à alguns orixás, principalmente à Oluerê,  um orixá caçador (Odé) relacionado à Oxóssi, muitas vezes tido como uma das qualidade de Oxóssi, ligado aos espíritos antigos e também às Iamí Oxorongá (* leia no post "Oxóssi, o dono das matas).
Ou seja, há muita complexidade nos mitos africanos, porém, a relação entre as matas, seus seres místicos, as árvores, as florestas, os  animais e os caçadores estão quase sempre interligados.

Festa de Iroko de Carybé


A GAMELEIRA-BRANCA


Gameleira com "Ojá" - Pano Branco
É sabido que os cultos africanos, uma vez que se instalaram no Brasil, passaram a ser sincretizados e se misturaram tanto às tradições nativas como às do colonizador. Assim, caboclos (indígenas) acabaram sendo cultuados no Candomblé de Angola e santos católicos associados aos Orixás do Candomblé de Ketu, o que acabou também originando a Umbanda. 
Da mesma forma, também as plantas receberam sincretismo. O milho, por exemplo, não é um vegetal original da África, porém é bastante utilizado como comida de santo - como, e em que momento, o milho ingressou nos cultos do Candomblé, é um mistério. Há a possibilidade dele ter sido adentrado aqui no Brasil ou até mesmo ter vindo da África após ele sido levado pelos colonizadores.
Com a árvore de Iroko, que na África é Milicia excelsa, ocorreu o mesmo. Aqui no Brasil, Iroko foi sincretizado e começou a ser cultuado na Gameleira Branca (Ficus doliaria).
Festa de Candomblé - Carybé
A Gameleira é uma planta nativa e bastante comum nas florestas tropicais brasileiras e a escolha desta espécie como substituta para o Iroko africado pode ter ocorrido por algumas semelhanças entre as duas. Ambas são da mesma família de plantas,  Moraeas, há certa semelhanças no formato de suas folhas e na espessura de seu troco e, assim como o Iroko africano, sua madeira é excelente para esculpir, tanto que o nome Gameleira foi dado por ser dela a melhor madeira para a confecção de gamelas (item essencial para os fundamentos do Candomblé, utilizado para diversos fins dentro dos Terreiros).


Gamelas Africanas






Oxóssi - O Dono das Matas



Odé

Uma vez abordado no último post o mito de Ossain, um dos quais Oxóssi (Odé - O Caçador) faz parte, nada mais justo do que falar sobre este Orixá cujas lendas são tão ricas.
Oxóssi é o orixá caçador, o que não erra uma só flecha. É filho de Iemanjá (Rainha do Mar) com Oxalá (O Orixá da Criação), irmão de Xangô, Ogum e Exú. 
O culto a este Orixá foi trazido com os negros escravizados que vieram da África em meados do século XVIII. O antigo reino de Daomé cultuava Oxóssi como um antigo Rei de Ketu, cidade que hoje pertence à República do Benim
De acordo com Pierre Verger (pesquisador francês, radicado no Brasil, e um nos mais respeitáveis escritores sobre os mitos africanos) o culto a Oxóssi, embora bastante popular no Brasil, é pouco difundido na África. Isto ocorre porque este orixá era cultuado basicamente em Ketu e a região foi praticamente devastada pelas tropas daometanas. Ocorre que grande parte de seus habitantes foram vendidos como escravos aos mercadores que vinham ao Brasil e às Antilhas o que fez com que Oxóssi se tornasse um dos mais venerados Orixás do Candomblé Brasileiro.


Kétou - A cidade de Odé



Oxotocanxoxô - O caçador de uma só flecha


Há diversas lendas sobre Oxóssi e muitas distintas que de forma alguma se anulam, mas torna os mitos africanos ainda mais numerosos. Esta é uma característica do Candomblé do Brasil que, embora seja vista por muitos leigos como uma religião que cultua as antigas deidades negras dos antigos habitantes exilados de suas terras, não se anula em uma única doutrina ou dogma.
Há, pelo menos, três narrativas diferentes que descrevem como Oxóssi recebeu o título de "Caçador de uma só flecha", dentre elas conta-se que:



Okê Arô
Todos os anos o rei de Ifé (cidade localizada na atual Nigéria) comemorava a colheita dos Inhames com uma grande festa. Porém, em certo ano, no dia da cerimônia, um grande pássaro de grandes asas sobrevoou o teto do palácio assustando todos os convidados e ameaçando acabar com as comemorações. O pássaro fora enviado pelas mães feiticeiras conhecidas como Iamís.

O rei, aterrorizado, mandou chamar os melhores arqueiros para que pudessem atingir o pássaro gigante. Assim, muitos se dispuseram a atingir a ave atirando suas flechas. Todos fracassaram, pois o pássaro fora enviado pelas Iámis como castigo por elas não terem sido convidadas para a festa.

Oxóssi, com toda a sua inteligência e astúcia, sabia que, embora fosse corajoso e excelente caçador, havia algo de mágico naquela aparição e dificilmente conseguiria enfrentar a ira das bruxas, já que outros exímios arqueiros tinham falhado. Odé, pediu então à sua mãe para que fizessem uma oferenda às feiticeiras a fim de apazigua-lhas . Assim a mãe fez o sacrifício para abrandar as Iamís.

Uma vez realizada a oferenda, O orixá arqueiro mirou o alvo e disparou uma única flecha, atingindo certeiramente a ave monstruosa. Todos ficaram estupefatos com o feito daquele Odé, pois muitos dos melhores arqueiros haviam tentado muitas vezes sem conseguir sequer se aproximar do pássaro gigante e arriscando suas próprias vidas.


Dessa forma, Odé salvou a nacão de Ifé e se tornou o mais honrado dos arqueiros passando a ser chamado de Oxotocanxô, o caçador de uma só flecha


A Coruja - Símbolo das Iamís


Os Filhos de Oxóssi

O Caçador
De acordo com o Candomblé, os "Filhos de Oxóssi" ou os "Típicos de Oxóssi" carregam consigo características de caçadores: são joviais, flexíveis, rápidos e independentes. Têm como postura a esperteza e o foco, porém, podem facilmente se dispersar - afinal os caçadores precisam estar atentos aos perigos à espreita para não se tornarem eles mesmos as caças. 
Assim, os filhos deste Orixá tendem a possuir uma paciência peculiar e procuram não acelerar demasiado para atingir seus objetivos, aguardando o momento certo para acertar a presa; como se seus movimentos fossem devidamente calculados para que no instante exato possam lançar a flecha.
Diz-se que, filhos de Oxóssi têm uma tendência ao isolamento quando precisam trabalhar, como se necessitassem da solitude para desempenhar suas funçõe cuidadosamente, entretanto têm um forte senso de responsabilidade e dever social, já que é ele o responsável pelo suprimento da tribo e seu trabalho é fundamental para prover o bem-estar da comunidade .






sábado, 16 de fevereiro de 2019

Ossain - O Senhor das Folhas

Orixá Ossain
Acredito que há algum tempo estou devendo uma postagem que aborde mitos africanos, e muitos têm a impressão de que sou ligado às religiões pagãs européias como o Druidismo e à Wicca. Bem, é notável que minha admiração aos celtas é maior do que quaisquer outras culturas da antiguidade e meus estudos sempre estiveram mais voltados aos mitos da Europa antiga, embora aprecie demais outras culturas.
Devo dizer que não tenho religião e, embora tenha sido iniciado há alguns anos numa fraternidade pagã fundada na Irlanda, também não me considero um pagão ou bruxo, ou mago, ou quaisquer outras coisas senão um estudioso, curioso e teórico não acadêmico - sem ligação alguma com qualquer culto de qualquer instituição, doutrina religiosa ou filosófica. É claro que admiro muitos deles, assim como discordo de muitos dogmas e fundamentos da maioria deles, mas procuro respeitar pois sei que, para muitos, isto é importante.
Filha de Ossain
Como brasileiro legítimo, sou miscigenado. Tenho ascendência européia e indígena e, sem sombra de dúvidas, africana (como qualquer Homo Sapiens). Também tenho muito orgulho desta miscegenação, de um país que agregou tantas culturas e guarda tantas histórias de povos tão diversos, de cores e de culturas tão distintas.
O Brasil foi responsável por manter vivo muitos dos cultos trazidos pelos negros, uma vez que muitas nações africanas foram extintas nestes séculos de exploração e com elas as suas deidades. O culto aos Orixás vieram com os nossos ancestrais escravos, intrínsecos em suas almas, pois como se diz no Candomblé "Uma vez feito o Orí (cabeça) o Ori será sempre do Orixá". A pessoa passa a viver o Orixá na essencia de toda a energia que esta força traz. Entrei neste este assunto porque Ossain, assim como todos os outros, é repleto de características próprias - assim como todos os seres humanos, animais, vegetais e tudo que existe no planeta. 
É  importante salientar que o Orixá é isto: uma força, uma energia. O Orixá não é um espírito humano ou animal, não é uma pessoa desencarnada, não é um encosto e nem baixa em alguém. O Orixá não entra, ele sai, se manifesta de dentro para fora. Portanto, quaisquer relações destas deidades com espíritos e entidades é mera falácia. E digo isto porque convivo há anos com pessoas do Candomblé, as quais me ensinaram muito a respeito desta religião e de como são cultuadas estas divindades para eles sagradas. 
Ossain Humanizado
Os Orixás estão mais próximos de forças da natureza e se assemelham muito mais aos ritos xamânicos indígenas do que ao espiritismo e a umbanda, como muitos acreditm. Nas casas de Candomblé, os espíritos (eguns) não são cultuados como acontece nestes outros segmentos espiritualistas.
Para que melhor se compreenda o que significa o Orixá para o Candomblé, pode-se utilizar as seguinte descrição: trata-se de uma energia da natureza, móvel (por isso a música e a dança fazem parte dos rituais), transformadora e misteriosa. 
As pessoas não entram em transe quando "recebem" o Orixá, mas entram em transe quando a força do Orixá é potencializada através dos cantos e dos ritos. Sob o ponto de vista do Candomblé, ele se revela ativamente, se exterioriza.


A Energia e a Natureza de Ossain


Ossain é a força das plantas

Iniciei este post tentando explicar esta força chamada Orixá, não porque saiba o que ela realmente é, pois não sou iniciado no rito, mas por convivência com filhos de santo e porque me fascinam estes mitos, principalmente quando estão relacionados à natureza em sua essência.
Falar de Ossain (ou Osanha) é adentrar um tema que muito me fascina, pois ele simboliza a energia das matas e o poder curativo das sementes, das folhas, das raizes, dos caules, e da pele das árvores. Ele é a floresta e o vegetal, é ele a força que guarda o segredo da dose exata que faz uma planta curar ou intoxicar.
Por tais qualidades ele também é chamado de grande médico das matas e alguns o chamam de feiticeiro verde, pois só ele conhece profundamente o "axé" (poder de cura) das folhas.
O Candomblé, assim como outras religiões ancestrais, não é maniqueísta e não divide o Universo em forças do bem e do mal, portanto, os Orixás não são essências boas ou más. Os Orixás, assim como os deuses gregos, celtas, vikings, entre outros, têm suas qualidades e também os seus "defeitos" (peculiaridades), embora sejam apenas características que têm bastante ligação com a própria Natureza e o Universo. A morte pode ser terrível para alguns e reconfortante para outros, a mesma chuva que faz germinar as sementes pode destruir as plantações, portanto o que é bom ou mau não pode ser colocado numa balança separatista. 
Uma questão que me incomoda em alguns sincretismos é tentar sistemarizar o Orixá nestas condições. Para alguns, Exu é considerado um ser "de esquerda" que muito se assemelha ao demônio cristão, e Oxum é chamada de "mamãe" como se fosse a benevolente Virgem Maria. Mas o mito conta que Exú é o  Orixá que abre os caminhos, que leva a mensagem e é também protetor, já Oxum é vaidosa, astuta e abandona o único filho (Logunedé) para viver com Xangô. Logo, Exú pode fazer muito bem e Oxum pode fazer muito mal, dependendo do ponto de vista.
Num dos mitos deste Orixá conta-se que ele nutria certo ressentimento de Orunmilá  (Ifá - o Orixá Oráculo) pois havia sido escravo deste adivinho. Assim sendo, o feiticeiro verde procurava, secretamente, muitas formas de causar infortúnios e transtornos a Ifá. Orunmilá pediu a Xangô (Orixá do Fogo) para que este lhe auxiliasse a descobrir o que estava por trás de tantos tormentos. Xangô aconselhou Olunmirá a fazer um ebó (oferenda) acendendo doze mechas de algodão junto com doze pedras de raio (edum ará) e logo em seguida invocar o poder do fogo. Desta forma, o que estivesse oculto seria revelado.
Assim que Orunmilá invocou o fogo, Ossain, que andava pelas florestas, foi atingido por um raio. A força que caiu sobre ele foi tamanha que amputou uma de suas pernas. Além de ter sido descoberto, Ossain ficou apenas com um dos membros.
Ewé
Esta é uma das lendas que justificam o Orixá ser representado apenas com uma das pernas e muitos alegam que a figura de  Ossain deu origem ao Saci das lendas Brasileiras. Por ter apenas uma perna, Ossain só pode andar saltando.
Outros dirão que Ossain só tem uma perna pois seu corpo é como uma árvore: seu pé é a raiz, sua perna é o tronco, seus braços são os galhos e seus cabelos são as folhas. Uma interessante forma de assimilar este Orixá com os seres mais proeminentes e importantes das matas. 
Algo interessante em se notar é que aqui no Brasil utilizamos a expressão "Pé" quando queremos designar uma árvore qualquer (pé de manga, pé de abacate, pé de ipê), como se este vegetal e sustentasse apenas por um pé, assim como Ossain.


O Feiticeiro e o Caçador


Oxossi & Ossain

"Oxóssi vivia com sua mãe Iemanjá e com seu irmão Ogum.
Ogum cultivava o campo e Oxóssi trazia caça da florestas.
A casa de Iemanjá era farta. Mas Iemanjá tinha maus pressentimentos e consultou o babalaô.
O adivinho lhe disse que proibisse Oxóssi de ir caçar nas matas, pois Ossaim, que reinava na floresta, podia aprisionar Oxóssi.
Iemanjá disse ao filho que nunca mais fosse à floresta. Mas Oxóssi, o caçador, era muito independente e rejeitou os apelos da mãe. Continuou indo às caçadas.
Um dia ele encontrou Ossaim, que lhe deu de beber um preparado. Oxóssi perdeu a memória.
Ossaim banhou o caçador com abôs misteriosos e ele ficou no mato morando com Ossaim.
Ogum não se conformava com o rapto do irmão. Foi à sua procura e não descansou até encontrá-lo. Finalmente livrou Oxóssi e o trouxe de volta a casa.
Iemanjá, contudo, não perdoou o filho desobedinete e não quis recebe-lo em casa. Ele voltou para as florestas, onde até hoje mora com Ossaim.
Ogum, por sua vez, brigou com a mãe e foi morar na estrada. 
Iemanjá passou a sentir demais a ausência dos dois filhos que ela praticamente expulsara de casa.
Tanto chorou Iemanjá, tanto chorou, que suas lágrimas ganharam curso, se avolumaram, e num rio (que que se tornou o mar) Iemanjá se transformou."


Iemanjá, Oxóssi e Ossain


* Texto retirado do Livro "Mitologia dos Orixás" de Reginaldo Prandi.