sexta-feira, 7 de agosto de 2020

ENTS - As Árvores Falantes de Tolkien



Há anos desejava escrever sobre este tema, porém, para que fosse relevante, sempre acreditei que era necessária uma pesquisa detalhada, afinal, compreender a obra de Tolkien é algo que requer cuidado e atenção. Até mesmo os leitores mais assíduos e amantes de mitologias podem se equivocar quando o assunto é o universo criado por ele.
J. J. R. Tolkien é um mestre acima de quaisquer contestações e eu sempre me senti muito leigo para ousar escrever algo desconhecendo a fundo seu mundo e suas criações. São muitos livros, apêndices, cartas e muitas histórias com minúcias que até hoje são estudadas por sérios pesquisadores e estudiosos de suas obras - inclusive dentro das grandes Universidades e Academias do Mundo. 
Tolkien criou e descreveu uma terra, com mapas, rios, vales e montanhas e uma riqueza de detalhes que nunca havia sido feito antes. Em seu mundo criou seres e deu a eles aparência física e nomes peculiares, e o que é mais fantástico, desenvolveu belos idiomas, com verbos, substantivos e plurais específicos. Não existem palavras o bastante para definir o que representa Tolkien para a literatura, para os mitólogos, linguistas e para os apaixonados por histórias fantásticas.
É claro que dentro da Terra Média há muitos personagens que me atraem e é evidente que os Ents são meus favoritos, por razões que dispensam grandes esclarecimentos.



QUEM SÃO OS ENTS?


Ent

Eu era adolescente quando vi o filme "As Duas Torres" pela primeira vez e confesso que, embora tivesse gostado muito mais da "Sociedade do Anel", as cenas em que apareciam aquelas enormes árvores falantes que andavam e lutavam, me davam arrepios e eu pensava: "que criação magnífica!". Na época eu não tinha lido nenhum dos livros e todo aquele Universo de "O Senhor dos Anéis" ainda era muito novo para mim. 
Embora me considere um fã, não sou nenhum estudioso assíduo de Tolkien e tampouco um grande conhecedor de todas as suas obras, apesar de quase tudo em sua vida e criação me fascinar. Não obstante, me dediquei à estudar os Ents e às árvores da Terra Média há algum tempo e acredito que hoje posso ousar falar um pouco destes seres fabulosos. Eu realmente acredito que Tolkien tenha se inspirado nos homens -verdes (Green-Man) ao criar os Ents, pois é sabido que esta figura está intimamente ligada ao folclore da Grã-Bretanha. Talvez ele vislumbrasse como seriam os corpos daquelas cabeças foliates, e o que diriam se pudessem falar.
É sabido que Ent vem do inglês antigo "eoten" que quer dizer gigante, e Tolkien provavelmente os criou pensando nestes seres como grandes árvores. Segundo Tolkien, os ents possuiam "at least fourteen foot hight", ou seja, pelo menos quatorze pés de altura, que, ao transformarmos em metros, corresponde à 4,2m. Grandes quando comparados aos hobbits e humanos, mas longe de ser árvores gigantes,  já que um Carvalho pode chegar aos 40 metros de altura.
A primeira aparição de um Ent ocorre no capítulo IV do livro "As Duas Torres" onde o título Barbárvore faz menção ao protagonista do episódio em que os hobbits Merry e Pippin são abordados por aquele ser que parecia uma mescla de homem e troll. Era coberto de uma espécie de casca verde cinzenta e possuia braços, mãos, pernas, pés e barbas, de onde vem seu apodo "Barbárvore" ( em inglês é chamado de "Treebeard" - Árvore Barbada ). Tinha olhos solenes e penetrantes e possuia uma voz profunda como um instrumento de sopro muito grave
O Homem-Verde
Segundo a descrição de Tolkien, estar diante daquele Ent era como ter a sensação de ver um poço de memórias cujas eras ele carregava. Seu nome era Fangorn, o mesmo nome dado à floresta onde se encontrava, o que leva a crer que aquele local tenha sido nomeado como se fora a "Floresta de Fangorn", ou seja, cujo dono era o próprio Banbárvore.
De acordo com o próprio Fangorn restavam na Terra Média, além dele, apenas mais dois dos primeiros Ents cujos nomes ele diz ser Finglas (Mecha-de-Folha) e Fladrif (Casca-de-Pele). Finglas havia ficado "arvoresco" e Fladrif refugiou-se nas colinas após ser ferido pelos Orcs e fora viver com as Bétulas. Contudo, muitos outros Ents aparecem na história e são descritos tão diferentes um dos outros como as árvores são entre elas. Alguns Ents eram robustos e lembravam carvalhos (assim como Barbárvore) outros se pareciam com freixos e eram altos, eretos e cinzentos. Há também os que se assemelhavam às castanheiras, com pernas curtas e grossas mas os mais altos deles lembravam mesmo os grandes pinheiros. Porém, mesmo que diferentes fisicamente, todos tinham a mesma expressão lenta, firme e pensativa - como uma árvore costuma ser.
Conforme diz "O Senhor dos Anéis" os Ents não eram árvores, mas sim seres protetores das árvores e  semelhantes à elas. Eram os mais antigos habitantes da Terra Média e Barbárvore o mais velho destes seres - segundo Gandalf, a criatura mais longeva que caminhava sob o sol .
Apesar de parecerem um tanto amistosos no filme, o livro é claro ao se referir o quão temida era a Floresta de Fangorn, onde poucos ousavam adentar. "Barbárvore é perigoso" - diz Gandalf - "porém gentil e sábio". 
Eu acredito que os Ents podem ser entendidos não somente como seres fantásticos, mas uma representação de como seriam as árvores se estas pudessem falar e se defender dos machados e serras que as destroem. Sim, seriam perigosas, e com toda razão. Entretando, são muito gentís, generosas e sábias, basta observar como se comportam diante dos homens que há tantos séculos lhes desrespeitam.
Bem, de toda forma algo que Tolkien nos ensina é que elas estavam aqui antes de nós e possivelmente estarão quando nós não mais estivermos. Assim, sabiamente desprezam nossos comportamentos, afinal somos só mais um dos seres que elas verão passar.



Abaixo segue trecho do audiobook referente ao capítulo IV de "O Senhor dos Anéis - As Duas Torres" que narra o momento em que Barbárvore se mostra aos Hobbits e conta a sua história.




segunda-feira, 1 de junho de 2020

Lavandas ou Alfazemas? Eis a Questão


Lavandula Officinalis
O nome lavandula deriva do Latim laavandarius, de onde provém o verbo lavar. Sabe-se que essa planta era utilizada nos antigos banhos romanos pelos soldados que as acrescentavam na água para lavar as feridas adquiridas nas batalhas. Acreditava-se que a lavanda tinha poder curativo e cicatrizante, além de deixar no local um excelente aroma que auxiliava no relaxamento e aliviava a fadiga e o cansaço. Estudos modernos confirmam que o aroma de lavanda é capaz de propiciar uma sensação de serenidade e calma quando aspergido num determinado ambiente.
Sendo de origem mediterrânea, em nenhum outro clima do mundo o seu cultivo é tão favorável, onde sua propagação vai do sul europeu, norte africano até o leste da Índia. O nomenclatura officinalis quer dizer "medicinal" e desde que os primeiros herbários começaram a ser escritos, as virtudes curativas da planta foram registradas, sabe-se que era prescrita para o alívio de cólicas menstruais, problemas estomacais e renais e também icterícias.
Muito antes dos romanos, os egípcios já conheciam as diversas propriedades da lavanda e já utilizavam seu óleo nos rituais de mumificação. Quando o sarcófago do faraó Tutancâmon (1341-1323 A.C) foi aberto em 1922, o cheiro de lavanda  ainda estava presente na urna funerária, mesmo após milênios de embalsamamento.
Na Idade Média, os monges e freiras católicos a utilizavam como inseticida e era bastante recomendada para eliminar pulgas e piolhos. Por ter ação refrescante, cataplasmas de lavanda eram feitos para tratar queimaduras e picadas de insetos. Historiadores contam que o rei Carlos VI da França exigia que seus travesseiros fossem enchidos com as flores e folhas da planta e o rei Luis XIV adorava banhar-se em água perfumada de lavanda, algo que posteriormente se tornaria um hábito comum na Europa com a criação da Água de Colônia no século XVIII.
O óleo essencial da lavanda é considerado o mais complexo dos óleos, cujos principais elementos que fornecem as fragrância são o linalol e o linalil, substâncias presentes em diversas plantas aromáticas, contudo, a lavanda é a que possui a maior concentração destes terpenos.
O óleo é responsável pela proteção da planta na natureza auxiliando em sua sobrevivência nos períodos mais quentes do verão Mediterrâneo, tornando-a também pouco apetitosa aos predadores. É exatamente este óleo que faz com que as plantações de lavandas sejam tão importantes para a indústria da perfumaria. Os belos campos de lavandas espalhados por terras mediterrâneas,  principalmente os da região da Provença (França), são fundamentais para abastecer a indústria química,  boticária e cosmética. São necessários, cerca de 160 kg de lavandas para a produção de um litro de óleo. Mas para se ter uma ideia do poder deste azeite, esta quantidade é capaz de produzir aproximadamente 600 sabonetes. 
Algo bastante intrigante é  que as lavandas, além de possuirem tanta beleza e tantas qualidades, preferem solos pobres, secos, com poucos nutrientes e muito sol e são exigem poucos cuidados. Mostrando que a Natureza faz brotar beleza nas mais adversas condições.
Particularmente, é de todas os aromas, o meu favorito. Eu utilizo óleos, incensos, aromatizadores e produtos de limpeza a base de lavanda quase que exclusivamente . Para mim, nenhum outro aroma parece purificar e trazer tanto bem-estar.
Benditos sejam esses pobres solos lilases!


Cartões da Provença

 

 

LAVANDAS OU ALFAZEMAS?


Muitos se questionam ao ver um arbusto de lavanda se aquela espécie pode ser também chamada de alfazema. Sim, é muito comum no Brasil chamarem popularmente toda lavanda de alfazema, assim como em Portugal.
Pode-se dizer que toda alfazema é uma lavanda, mas nem toda lavanda é alfazema. Embora muitos possam alegar que a alfazema verdadeira é a Lavandula angustifolia outros dirão que a verdadeira é a Lavandula latifolia e esta é uma questão cuja resposta dificilmente convencerá a todos. Porém, há alguns fatos a serem levados em conta:
Primeiramente o termo alfazema vem do árabe al-khuzâma ou Alhuzaima, que era o nome atribuído à planta que hoje conhecemos como lavanda, mas não se sabe ao certo qual variedade delas. Como a península ibérica foi amplamente povoada pelos denominados "mouros" ou "sarracenos" por quase 800 anos (711 - 1492), é sabido que muitas palavras do aramaico acabaram sendo apropriadas pela língua portuguesa. Algo a ser considerado é que, embora tenha origem árabe, a palavra "alfazema", tanto em sua escrita como na forma falada, não existe em nenhuma outra língua além do português. Desta forma, é mais provável que alfazemas sejam lavandas encontradas em terras portuguesas.
Os catálogos botânicos com suas regras de nomenclaturas e divisões só passaram a ser utilizado a partir do século XVIII, portanto, antes desse período as plantas não eram designadas da forma como vemos hoje, e provavelmente a alfazema já era chamada de alfazema muito antes da taxinomia ser utilizada na botânica.
É importante ressaltar que já foram catalogadas cerca 45 espécies de lavandas e mais de 450 variedades espalhadas pelas regiões da Europa, Africa e Ásia, porém as espécie mais comuns na Península Ibérica são as Lavandula latifolia e as  Lavandula stoechas. A primeira é conhecida popularmente como Lavanda-portuguesa ou Lavanda-espanhola, enquanto a segunda costuma ser chamada em Portugal de Rosmaninho e possui flores muito singulares .
Em terras portuguesas a variedade latifolia é também conhecida como alfazema-brava. Deste modo, por eliminação, tudo leva a crer que a legítima "Alfazema" é mesmo a Lavandula latifolia, já que, até que se prove o contrário, ela é tipicamente lusitana.


Lavanda - Alfazema - Lavandin - Lavanda Francesa e Rosmaninho

sábado, 4 de janeiro de 2020

Iroko - A Árvore Orixá

Iroko - A Árvore Orixá
Ao contrário do que dizem, Iroko não é o Orixá do Tempo mas sim está relacionado à uma árvore sagrada africana cujos cultos são diversificados de acordo com as comunidades africanas e suas origens. A relação que existe entre Iroko e o "tempo" é devido a um Orixá da nação Bantu (das regiões de Angola, Congo e Moçambique) denominado Kitembo que foi posteriormente associado a Iroko da nação Iorubá (das regiões da Nigéria, Benin e Togo). Porém, não se trata da mesma deidade, já que o Candomblé de Angola possui muitas diferenças do Candomblé de Ketu.
Milicia excelsa - Iroko Africano
Iroko, embora esteja relacionado a um Orixá especificamente, é mesmo o nome de uma árvore da família Moraceae cujo nome científico é Milicia excelsa. Esta relação sim é congruente, e há conexões entre esta espécie e o Orixá em sua terra de Origem. No Brasil há alguns exemplares de Iroko, até onde se sabe, todos pertencentes a terreiros de Candomblé.
É um tipo de árvore bastante alta, que pode chegar aos 50 metros e que, quando cortada, derrama um latex branco que alguns acreditam ter propriedades curativas, sendo bastante utilizado na medicina popular de algumas regiões da África. Além disso, o povo Iorubá utiliza a madeira de Iroko na confecção de esculturas sagradas que só podem ser esculpidas por artesãos religiosos autorizados à esta prática, pois quaisquer pessoas que não são iniciadas na prática e não conhecem o segredo da árvore sagradas pode acabar atraindo a ira do Orixá..
De acordo com o Babá Zarcel, sacerdote do candomblé e estudioso dos mitos tradicionais Iorubás, em algumas tradições, Iroko não é considerado um Orixá mas sim uma árvore que serve como ponto de culto e local de oferenda à alguns orixás, principalmente à Oluerê,  um orixá caçador (Odé) relacionado à Oxóssi, muitas vezes tido como uma das qualidade de Oxóssi, ligado aos espíritos antigos e também às Iamí Oxorongá (* leia no post "Oxóssi, o dono das matas).
Ou seja, há muita complexidade nos mitos africanos, porém, a relação entre as matas, seus seres místicos, as árvores, as florestas, os  animais e os caçadores estão quase sempre interligados.

Festa de Iroko de Carybé


A GAMELEIRA-BRANCA


Gameleira com "Ojá" - Pano Branco
É sabido que os cultos africanos, uma vez que se instalaram no Brasil, passaram a ser sincretizados e se misturaram tanto às tradições nativas como às do colonizador. Assim, caboclos (indígenas) acabaram sendo cultuados no Candomblé de Angola e santos católicos associados aos Orixás do Candomblé de Ketu, o que acabou também originando a Umbanda. 
Da mesma forma, também as plantas receberam sincretismo. O milho, por exemplo, não é um vegetal original da África, porém é bastante utilizado como comida de santo - como, e em que momento, o milho ingressou nos cultos do Candomblé, é um mistério. Há a possibilidade dele ter sido adentrado aqui no Brasil ou até mesmo ter vindo da África após ele sido levado pelos colonizadores.
Com a árvore de Iroko, que na África é Milicia excelsa, ocorreu o mesmo. Aqui no Brasil, Iroko foi sincretizado e começou a ser cultuado na Gameleira Branca (Ficus doliaria).
Festa de Candomblé - Carybé
A Gameleira é uma planta nativa e bastante comum nas florestas tropicais brasileiras e a escolha desta espécie como substituta para o Iroko africado pode ter ocorrido por algumas semelhanças entre as duas. Ambas são da mesma família de plantas,  Moraeas, há certa semelhanças no formato de suas folhas e na espessura de seu troco e, assim como o Iroko africano, sua madeira é excelente para esculpir, tanto que o nome Gameleira foi dado por ser dela a melhor madeira para a confecção de gamelas (item essencial para os fundamentos do Candomblé, utilizado para diversos fins dentro dos Terreiros).


Gamelas Africanas



Oxóssi - O Dono das Matas



Odé

Uma vez abordado no último post o mito de Ossain, um dos quais Oxóssi (Odé - O Caçador) faz parte, nada mais justo do que falar sobre este Orixá cujas lendas são tão ricas.
Oxóssi é o orixá caçador, o que não erra uma só flecha. É filho de Iemanjá (Rainha do Mar) com Oxalá (O Orixá da Criação), irmão de Xangô, Ogum e Exú. 
O culto a este Orixá foi trazido com os negros escravizados que vieram da África em meados do século XVIII. O antigo reino de Daomé cultuava Oxóssi como um antigo Rei de Ketu, cidade que hoje pertence à República do Benim
De acordo com Pierre Verger (pesquisador francês, radicado no Brasil, e um nos mais respeitáveis escritores sobre os mitos africanos) o culto a Oxóssi, embora bastante popular no Brasil, é pouco difundido na África. Isto ocorre porque este orixá era cultuado basicamente em Ketu e a região foi praticamente devastada pelas tropas daometanas. Ocorre que grande parte de seus habitantes foram vendidos como escravos aos mercadores que vinham ao Brasil e às Antilhas o que fez com que Oxóssi se tornasse um dos mais venerados Orixás do Candomblé Brasileiro.


Kétou - A cidade de Odé



Oxotocanxoxô - O caçador de uma só flecha


Há diversas lendas sobre Oxóssi e muitas distintas que de forma alguma se anulam, mas torna os mitos africanos ainda mais numerosos. Esta é uma característica do Candomblé do Brasil que, embora seja vista por muitos leigos como uma religião que cultua as antigas deidades negras dos antigos habitantes exilados de suas terras, não se anula em uma única doutrina ou dogma.
Há, pelo menos, três narrativas diferentes que descrevem como Oxóssi recebeu o título de "Caçador de uma só flecha", dentre elas conta-se que:



Okê Arô
Todos os anos o rei de Ifé (cidade localizada na atual Nigéria) comemorava a colheita dos Inhames com uma grande festa. Porém, em certo ano, no dia da cerimônia, um grande pássaro de grandes asas sobrevoou o teto do palácio assustando todos os convidados e ameaçando acabar com as comemorações. O pássaro fora enviado pelas mães feiticeiras conhecidas como Iamís.

O rei, aterrorizado, mandou chamar os melhores arqueiros para que pudessem atingir o pássaro gigante. Assim, muitos se dispuseram a atingir a ave atirando suas flechas. Todos fracassaram, pois o pássaro fora enviado pelas Iámis como castigo por elas não terem sido convidadas para a festa.

Oxóssi, com toda a sua inteligência e astúcia, sabia que, embora fosse corajoso e excelente caçador, havia algo de mágico naquela aparição e dificilmente conseguiria enfrentar a ira das bruxas, já que outros exímios arqueiros tinham falhado. Odé, pediu então à sua mãe para que fizessem uma oferenda às feiticeiras a fim de apazigua-lhas . Assim a mãe fez o sacrifício para abrandar as Iamís.

Uma vez realizada a oferenda, O orixá arqueiro mirou o alvo e disparou uma única flecha, atingindo certeiramente a ave monstruosa. Todos ficaram estupefatos com o feito daquele Odé, pois muitos dos melhores arqueiros haviam tentado muitas vezes sem conseguir sequer se aproximar do pássaro gigante e arriscando suas próprias vidas.


Dessa forma, Odé salvou a nacão de Ifé e se tornou o mais honrado dos arqueiros passando a ser chamado de Oxotocanxô, o caçador de uma só flecha


A Coruja - Símbolo das Iamís


Os Filhos de Oxóssi

O Caçador
De acordo com o Candomblé, os "Filhos de Oxóssi" ou os "Típicos de Oxóssi" carregam consigo características de caçadores: são joviais, flexíveis, rápidos e independentes. Têm como postura a esperteza e o foco, porém, podem facilmente se dispersar - afinal os caçadores precisam estar atentos aos perigos à espreita para não se tornarem eles mesmos as caças. 
Assim, os filhos deste Orixá tendem a possuir uma paciência peculiar e procuram não acelerar demasiado para atingir seus objetivos, aguardando o momento certo para acertar a presa; como se seus movimentos fossem devidamente calculados para que no instante exato possam lançar a flecha.
Diz-se que, filhos de Oxóssi têm uma tendência ao isolamento quando precisam trabalhar, como se necessitassem da solitude para desempenhar suas funçõe cuidadosamente, entretanto têm um forte senso de responsabilidade e dever social, já que é ele o responsável pelo suprimento da tribo e seu trabalho é fundamental para prover o bem-estar da comunidade .





sábado, 16 de fevereiro de 2019

Ossain - O Senhor das Folhas

Orixá Ossain
Acredito que há algum tempo estou devendo uma postagem que aborde mitos africanos, e muitos têm a impressão de que sou ligado às religiões pagãs européias como o Druidismo e à Wicca. Bem, é notável que minha admiração aos celtas é maior do que quaisquer outras culturas da antiguidade e meus estudos sempre estiveram mais voltados aos mitos da Europa antiga, embora aprecie demais outras culturas.
Devo dizer que não tenho religião e, embora tenha sido iniciado há alguns anos numa fraternidade pagã fundada na Irlanda, também não me considero um pagão ou bruxo, ou mago, ou quaisquer outras coisas senão um estudioso, curioso e teórico não acadêmico - sem ligação alguma com qualquer culto de qualquer instituição, doutrina religiosa ou filosófica. É claro que admiro muitos deles, assim como discordo de muitos dogmas e fundamentos da maioria deles, mas procuro respeitar pois sei que, para muitos, isto é importante.
Filha de Ossain
Como brasileiro legítimo, sou miscigenado. Tenho ascendência européia e indígena e, sem sombra de dúvidas, africana (como qualquer Homo Sapiens). Também tenho muito orgulho desta miscegenação, de um país que agregou tantas culturas e guarda tantas histórias de povos tão diversos, de cores e de culturas tão distintas.
O Brasil foi responsável por manter vivo muitos dos cultos trazidos pelos negros, uma vez que muitas nações africanas foram extintas nestes séculos de exploração e com elas as suas deidades. O culto aos Orixás vieram com os nossos ancestrais escravos, intrínsecos em suas almas, pois como se diz no Candomblé "Uma vez feito o Orí (cabeça) o Ori será sempre do Orixá". A pessoa passa a viver o Orixá na essencia de toda a energia que esta força traz. Entrei neste este assunto porque Ossain, assim como todos os outros, é repleto de características próprias - assim como todos os seres humanos, animais, vegetais e tudo que existe no planeta. 
É  importante salientar que o Orixá é isto: uma força, uma energia. O Orixá não é um espírito humano ou animal, não é uma pessoa desencarnada, não é um encosto e nem baixa em alguém. O Orixá não entra, ele sai, se manifesta de dentro para fora. Portanto, quaisquer relações destas deidades com espíritos e entidades é mera falácia. E digo isto porque convivo há anos com pessoas do Candomblé, as quais me ensinaram muito a respeito desta religião e de como são cultuadas estas divindades para eles sagradas. 
Ossain Humanizado
Os Orixás estão mais próximos de forças da natureza e se assemelham muito mais aos ritos xamânicos indígenas do que ao espiritismo e a umbanda, como muitos acreditm. Nas casas de Candomblé, os espíritos (eguns) não são cultuados como acontece nestes outros segmentos espiritualistas.
Para que melhor se compreenda o que significa o Orixá para o Candomblé, pode-se utilizar as seguinte descrição: trata-se de uma energia da natureza, móvel (por isso a música e a dança fazem parte dos rituais), transformadora e misteriosa. 
As pessoas não entram em transe quando "recebem" o Orixá, mas entram em transe quando a força do Orixá é potencializada através dos cantos e dos ritos. Sob o ponto de vista do Candomblé, ele se revela ativamente, se exterioriza.


A Energia e a Natureza de Ossain


Ossain é a força das plantas

Iniciei este post tentando explicar esta força chamada Orixá, não porque saiba o que ela realmente é, pois não sou iniciado no rito, mas por convivência com filhos de santo e porque me fascinam estes mitos, principalmente quando estão relacionados à natureza em sua essência.
Falar de Ossain (ou Osanha) é adentrar um tema que muito me fascina, pois ele simboliza a energia das matas e o poder curativo das sementes, das folhas, das raizes, dos caules, e da pele das árvores. Ele é a floresta e o vegetal, é ele a força que guarda o segredo da dose exata que faz uma planta curar ou intoxicar.
Por tais qualidades ele também é chamado de grande médico das matas e alguns o chamam de feiticeiro verde, pois só ele conhece profundamente o "axé" (poder de cura) das folhas.
O Candomblé, assim como outras religiões ancestrais, não é maniqueísta e não divide o Universo em forças do bem e do mal, portanto, os Orixás não são essências boas ou más. Os Orixás, assim como os deuses gregos, celtas, vikings, entre outros, têm suas qualidades e também os seus "defeitos" (peculiaridades), embora sejam apenas características que têm bastante ligação com a própria Natureza e o Universo. A morte pode ser terrível para alguns e reconfortante para outros, a mesma chuva que faz germinar as sementes pode destruir as plantações, portanto o que é bom ou mau não pode ser colocado numa balança separatista. 
Uma questão que me incomoda em alguns sincretismos é tentar sistemarizar o Orixá nestas condições. Para alguns, Exu é considerado um ser "de esquerda" que muito se assemelha ao demônio cristão, e Oxum é chamada de "mamãe" como se fosse a benevolente Virgem Maria. Mas o mito conta que Exú é o  Orixá que abre os caminhos, que leva a mensagem e é também protetor, já Oxum é vaidosa, astuta e abandona o único filho (Logunedé) para viver com Xangô. Logo, Exú pode fazer muito bem e Oxum pode fazer muito mal, dependendo do ponto de vista.
Num dos mitos deste Orixá conta-se que ele nutria certo ressentimento de Orunmilá  (Ifá - o Orixá Oráculo) pois havia sido escravo deste adivinho. Assim sendo, o feiticeiro verde procurava, secretamente, muitas formas de causar infortúnios e transtornos a Ifá. Orunmilá pediu a Xangô (Orixá do Fogo) para que este lhe auxiliasse a descobrir o que estava por trás de tantos tormentos. Xangô aconselhou Olunmirá a fazer um ebó (oferenda) acendendo doze mechas de algodão junto com doze pedras de raio (edum ará) e logo em seguida invocar o poder do fogo. Desta forma, o que estivesse oculto seria revelado.
Assim que Orunmilá invocou o fogo, Ossain, que andava pelas florestas, foi atingido por um raio. A força que caiu sobre ele foi tamanha que amputou uma de suas pernas. Além de ter sido descoberto, Ossain ficou apenas com um dos membros.
Ewé
Esta é uma das lendas que justificam o Orixá ser representado apenas com uma das pernas e muitos alegam que a figura de  Ossain deu origem ao Saci das lendas Brasileiras. Por ter apenas uma perna, Ossain só pode andar saltando.
Outros dirão que Ossain só tem uma perna pois seu corpo é como uma árvore: seu pé é a raiz, sua perna é o tronco, seus braços são os galhos e seus cabelos são as folhas. Uma interessante forma de assimilar este Orixá com os seres mais proeminentes e importantes das matas. 
Algo interessante em se notar é que aqui no Brasil utilizamos a expressão "Pé" quando queremos designar uma árvore qualquer (pé de manga, pé de abacate, pé de ipê), como se este vegetal e sustentasse apenas por um pé, assim como Ossain.


O Feiticeiro e o Caçador


Oxossi & Ossain

"Oxóssi vivia com sua mãe Iemanjá e com seu irmão Ogum.
Ogum cultivava o campo e Oxóssi trazia caça da florestas.
A casa de Iemanjá era farta. Mas Iemanjá tinha maus pressentimentos e consultou o babalaô.
O adivinho lhe disse que proibisse Oxóssi de ir caçar nas matas, pois Ossaim, que reinava na floresta, podia aprisionar Oxóssi.
Iemanjá disse ao filho que nunca mais fosse à floresta. Mas Oxóssi, o caçador, era muito independente e rejeitou os apelos da mãe. Continuou indo às caçadas.
Um dia ele encontrou Ossaim, que lhe deu de beber um preparado. Oxóssi perdeu a memória.
Ossaim banhou o caçador com abôs misteriosos e ele ficou no mato morando com Ossaim.
Ogum não se conformava com o rapto do irmão. Foi à sua procura e não descansou até encontrá-lo. Finalmente livrou Oxóssi e o trouxe de volta a casa.
Iemanjá, contudo, não perdoou o filho desobedinete e não quis recebe-lo em casa. Ele voltou para as florestas, onde até hoje mora com Ossaim.
Ogum, por sua vez, brigou com a mãe e foi morar na estrada. 
Iemanjá passou a sentir demais a ausência dos dois filhos que ela praticamente expulsara de casa.
Tanto chorou Iemanjá, tanto chorou, que suas lágrimas ganharam curso, se avolumaram, e num rio (que que se tornou o mar) Iemanjá se transformou."


Iemanjá, Oxóssi e Ossain


* Texto retirado do Livro "Mitologia dos Orixás" de Reginaldo Prandi.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Green Man - O Homem Verde

Após tanto tempo sem postar, acredito que deva alguns esclarecimentos aos leitores deste blog. Ocorre que no ano de 2018 estive dedicado quase que exclusivamente ao canal GreenMan Valley do Youtube. O canal exigiu parte considerável de meu tempo e a busca por novos conteúdos de música celta, clássica, instrumental e new age acabou se tornando um novo trabalho para mim.  Considero, todavia, que valeu bastante a pena pois obtive grandes êxitos através dele e com mais de 100 Mil inscritos, posso dizer que meu emprenho foi apreciado e a devolutiva bastante animadora. Lamentavelmente, por forças maiores, preferi interroper as atividades do Canal
Contudo, minha apreciação pelas plantas, pelas mitologias e pela antropologia não mudou, apenas escolhi me dedicar por um tempo à musica, arte que não menos me fascina.
O Canal "Vale do Homem Verde" (GreenMan Valley) surgiu como uma forma de compartilhar o que eu considero boa música e divulgar sons que possam, de alguma maneira, elevar e apurar o gosto músical de ouvintes que apreciam o estilo.  A Escolha pelo nome 'GreenMan' vem de minha admiração por este ser mitológico cujas origens ainda são questionadas.
Acredita-se que a primeira pessoa a utilizar o termo "Homem Verde" foi a estudiosa Lady Raglan em um artigo de 1939 que abordava a relação destas cabeças folhadas com a arquitetura religiosa. Hoje sabe-se que estas figuras são mais antigas do que as igrejas cristãs, descobriu-se antigas imagens de cabeças semelhantes na Índia e no Oriente Médio e o pesquisador Mike Man sugeriu que este símbolo tenha origem em algum lugar da Ásia Menor, posteriormente sendo levado para a Europa Ocidental por escultores viajantes. Muitos acreditam que fora os Cavaleiros Templários os responsáveis por propagar estas imagens, já que as as Igrejas Góticas estão repletas delas e não se pode negar que estas esculturas estão muito mais presentes em templos cristão do medievo do que em outros sítios arqueológicos. Na mistica Catedral de Chartres, na França, foram esculpidas cerca de 70 figuras do Green Man. 
Os franceses o chamam de "Le feuillou, e na Alemanha é chamado de "Blattgesicht" e entre os povos das Ilhas Britânicas também é conhecido como "Wise Green Man" (Sábio Homem Verde).


O SÁBIO HOMEM VERDE



Talvez o chamem de sábio por dois motivos: o primeiro é devido à sua aparência que, quase sempre, assemelha-se a um homem velho e, por ser repleto de folhas, acredita-se que nele está oculto antigos conhecimentos da Natureza e das antigas tradições. Não raramente ele foi relacionado ao mitológico Mago Melin, que vivia escondido nas florestas e possuia conhecimento e a sabedoria dos druídas.
De acordo com o escritor Toby Lester, muitos mestres contrutores da Idade Média eram artesãos, escultores e pedreiros que, embora peritos no que faziam, perteciam às classes mais baixas, deixando poucos documentos e sendo raramente mencionados como responsáveis pelas obras. Quem levava o crédito pelas construções eram, normalmente, os contratantes membros do clero e da nobreza. Supõe-se, contudo, que as cabeças foliates eram empregadas em colunas e capiteis das igrejas por estes construtores sem prévia autorização. Como não haviam registros que pudessem justificar tais entalhes, os motivos até hoje são questionados.
Sabe-se, entretanto, que muitas das Igrejas Cristãs foram construídas em cima de bosques sagrados e locais de culto pagão, e que muitos dos camponeses mantinham suas crenças em segredo, celebrando os antigos ritos mesmo após o advento do cristianismo. Talvez esta tenha sido um maneira de se lembrar das antigas deidades das natureza, ou um gesto de rebeldia num tempo onde expressar crenças diferentes do que era apregoado era motivo de perseguição e morte. 
O homem verde, o espírito ancestral das florestas, estaria oculto alí nos templos cristãos e jamais poderia ser esquecido ou subjulgado facilmente pela nova religião. Muitos alegam que esta foi então a sábia forma que os antigos espíritos encontraram de estar presentes. 


O CAVALEIRO VERDE DE CAMELOT


Acredita-se que uma das primeiras histórias escritas relacionadas ao homem verde date do século XIV e hoje é conhecida como "Sir Gwaine and The Green Knight". O conto narra um episódio ocorrido em Camelot (Sir Gwaine e o Cavaleiro Verde) na corte do lendário Rei Arthur. A história abaixo foi resumida para que pudesse ser contada de forma mais sucinta.

"Em Camelot, no dia de Ano Novo, entrou no salão de Arthur um grande guerreiro verde em um cavalo imponente, segurando um ramo de azevinho em uma mão e um imenso machado de guerra na outra. Sua pele era verde, seu cabelo era verde, e até mesmo seu cavalo era verde. Ele tinha vindo performar o que chamou de ´prova de coragem´. Todos da Távola Redonda estremeceram diante daquele ser que parecia ser de outro mundo e repleto de poderes mágicos capazes de derrotar dezenas num só sopro de seu desejo.
De acordo com o cavaleiro, qualquer campeão que ousasse poderia atacar-lhe e tentar vence-lo, porém, um ano mais tarde o campeão submeter-se-ia a uma nova luta e receberia um golpe semelhante. Gawain, compreendendo que aquele ser podia destruir o reino de Arthur, aceitou o desafio e assim decidiu enfrenta-lo na tentativa de salvar o reino. Gwaine (Gawain), que era exímio guerreiro, num só golpe de sua espada atingiu o cavaleiro verde cortando-lhe a cabeça. Todos ficaram boquiabertos com a rapidez com que o jovem vencera o duelo.
O Cavaleiro Verde calmamente pegou a cabeça que rolou pelo chão pelos cabelos e virou o rosto para Sir Gwaine e com as pálpebras arregaladas disse para que campeão o encontrasse na Capela Verde um ano mais tarde , pois seria a sua vez de receber um golpe semelhante.
Como Gwain era um homem honrado e cumpridor de sua palavra, temendo também ser aquela alguma maldição que pudesse atingir Camelot, exatamente um ano após este evento o cavaleiro de Arthur foi até a Capela Verde a fins de enfrentar novamente o Cavaleiro Verde.
Chegando lá,  Gwaine deparou-se mais uma vez com o sinistro Homem Verde e, diante dele, desnudou seu pescoço para que pudesse logo receber o golpe, já que fora assim que havia ganhado a luta. O Cavaleiro  levantou o Machado e ao lançar o golpe para decaptar Gwaine, parou com a lâmina próxima ao pescoço do nobre guerreiro de Arthur e recuou.
Gwaine havia passado pelo teste. O Cavaleiro Verde então, proferindo belas palavras, disse a Gwaine que seu nome seria lembrado para sempre, pois cumprira com sua promessa e demonstrara coragem em sua conduta, sendo capaz inclusive de doar sua vida pelo reino. E foi assim que Gwain se tornou um dos homens mais admirados em Camelot e entre todos homens e fadas (Avalon) e seu nome é lembrado até hoje como símbolo de honra, virtude e bravura."



domingo, 17 de dezembro de 2017

São Nicolau - Papai Noel e Santa Claus



Nestes ultimos tempos estive dedicado à musica que é uma das minhas grandes paixões, com mais um Canal no Youtube, voltado principalmente à música Celta. Nestes últimos dias, quase exclusivamente às Canções Natalinas (Carols) que me levaram a estudar muitos aspectos desta celebração anual, entre elas o espetacular mito do Papai Noel.
É sabido que sua origem está no Bispo Nicolau de Mira, ou Nicolau de Bari, que nasceu no ano 280 d.c ( há fontes que citam 270 d.c) onde hoje é a Turquia, e faleceu em 343 d.c. no dia 06 de Dezembro. Portanto, a festa do Santo Padroeiro da Europa era celebrada em Dezembro (data de morte) e, diga-se de passagem, uma grande festa, onde as relíquias (restos mortais) de Nicolau eram veneradas na Basílica de Bari na Itália. 
S. Nicolau de Bari - Patrono os Navegantes
Foi devido à estas relíquias que muitos acontecimentos posteriores fizeram com que a figura de Papai Noel surgisse.
Sendo ele o santo mais popular da Europa na Idade Média, a peregrinação até Bari no mês de Dezembro levava milhares de pessoas aos restos mortais do venerável bispo, pessoas de todo o continente desejavam ter acesso à um líquido perfumado, também chamado de maná, que fluía da tumba do Santo. Diziam que tal fluído tinha poderes curativos e milagrosos. A Igreja Católica, vendo o grande interesse da população pelo "maná" miraculoso, passou então à comercializar o sagrado líquido. Acredita-se que este foi o início do comércio de relíquias e venda de indulgências que se tornaram tão comuns nos séculos que se seguiram por toda a Europa.
Devido a este comércio de indultos e culto às relíquias , no ano de 1517, um monge agostiniano deu início à Reforma Protestante. Acredita-se que a veneração a São Nicolau e seus restos mortais era uma das que mais incomodava e revoltava Martinho Lutero e foi um dos primeiros cultos que ele tratou de repudiar e abolir.
Mas Lutero sabia que seria muito difícil o povo europeu deixar de celebrar a Festa de São Nicolau em Dezembro, já que era muito popular e diversas igrejas pela Europa eram dedicadas ao santo. Os protestantes então tentaram transferir as festividades do início do mês para o dia de Natal, e como São Nicolau era também patrono das crianças, um símbolo infantil teria que existir para gradativamente as pessoas se adequarem, sem romper definitivamente com as tradições arraigadas no seio das comunidades, neste caso,  foi escolhido o menino Jesus como ícone e a ele era dedicada às festividades deste período. 
Father Christmas
Ocorre que nem todos os países que aderiram ao protestantismo incorporaram as novas tradições luteranas. A Inglaterra, que se tornou anglicana, e a Holanda, com base calvinista, mantiveram a velha imagem de São Nicolau, embora algumas transformações foram ocorrendo com o tempo.
Na Inglaterra ele se transformou, séculos depois, em Father Christmas e na Holanda o nome de São Nicolau se manteve "Sinter klass", pois este era também o patrono dos marinheiros e a Holanda prezava demais sua tradição e frota marítima. 
Os EUA tinham colonos ingleses e holandeses e foram estes últimos que levaram a figura de "Sinterklass" ao Novo Mundo. A palavra holandesa Sinterklass se converteu em "Santa Claus" no inglês falado na América. 
Em 1823 o escritor Clement Clarke Moore escreveu um poema entitulado " Twas the Night Before Christmas", traduzido como "Uma Visita de São Nicolau". Nele, Moore cria um personagem de fantasia, que aparece na véspera de Natal num trenó puxado por renas e entra pela chaminé trazendo presentes às crianças. Este poema foi o elo de ligação entre o Velho São Nicolau e o vindouro Papai Noel.


Uma Visita de São Nicolau

Sinterklass e Papai Noel

A Holanda tem especial fascínio pela figura de São Nicolau (Sinterklass), até hoje a festa do dia 05 de Dezembro (véspera do dia oficial do santo) é uma celebração das mais tradicionais do país. Mas este país tem sua própria concepção deste personagem, que acabou mesclando aspectos do deus germano Wodan (equivalente a Odin).
De acordo com a lenda, Wodan, o Deus Pai da mitologia germana, cavalgava pelos Céus em seu cavalo presenteando os bons e punindo os maus. Então São Nicolau ganhou um cavalo  que cavalga pelos ares e deixa presentes que caem pela chaminé.
O hábito de presentear de deu porque, de acordo com narrativas, Nicolau, sendo de uma família abastada, ajudou um cidadão que não tinha dinheiro para o dote de suas filhas, sem opção, ele teria então que vende-las como escravas. Nicolau decidiu então dar-lhes o dinheiro lançando as moedas pela janela da casa. Cada noite ele lançava uma bolsa com  o valor necessário para o dote de cada uma das filhas. Mas, na terceira noite, foi descoberto pelo beneficiado e a notícia acabou se espalhando.
No século XII, algumas freiras francesas, inspiradas pelos atos de São Nicolau, passaram a distribuir anonimamente alimentos aos mais necessitados no dia de São Nicolau. Muitos acabavam acreditando que era o próprio Santo que deixava os presentes.
Esta prática se difundiu por vários cantos da Europa e Dezembro se tornou o mês onde a caridade costumava ser praticada.
Wodan 
Quando a tradição Holandesa foi para os EUA, no século XVII, novos ícones foram agregados - provavelmente absorvidos de outros países. Renas nórdicas substituiriam o cavalo; elfos ajudantes substituiram o holandês Zwart Piet (um auxiliar de Sinterklaas); a mamãe Noel foi uma criação da americana Katharine Lee Bates no século XIX e sua casa no Polo Norte foi uma escolha inspirada na lenda inglesa de que ele vivia na Lapônia.
O nome Noel vem do francês onde a palavra significa Natal (Natividade de Cristo) e ele assim foi denominado no Brasil: Papai Noel. Já em Portugal ele é conhecido como Pai Natal.
Embora pareça estranha, a imagem do bom velhinho barbudo, de gorro e roupa vermelha como é conhecido hoje, foi uma criação da Coca-Cola que, nos anos 30, pediu  ao ilustrador Haddon Sundblom para criar uma série de anúncios com o Papai Noel, inspirado nas cores da marca.
A propaganda foi tão bem-sucedida que até hoje é a imagem mais difundida no Natal.

Papai Noel - Coca-Cola

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Cernunnos - O Deus das Feiticeiras

Hoje se celebra o "Dia das Bruxas" e muitos comemoram esta data de forma bastante fantasiosa, misturando as feiticeiras aos monstros das histórias fantásticas, fantasmas, vampiros e demônios assustadores. Mas a grande maioria desconhece as origens desta miscelânea e muitos se perguntam se a chamadas "bruxas" acreditam em deus ou cultuam mesmo o diabo. Bem, esta é um postagem para esclarecer alguns mitos em relação as deidades das feiticeiras.
Primeiramente é preciso dizer que a bruxaria é algo complexo, que não se anula em um único texto, pois há vários períodos históricos, locais diversos e muitas religiões e práticas pagãs que foram colocadas todas em um mesmo caldeirão onde o culto foi denominado "bruxaria" e "feitiçaria".
A veneração às divindades chifrudas existe deste tempos remotos que antecedem, e muito, ao cristianismo. Babilônicos, egípcios, gregos, entre outros povos indo-europeus, já viam nos chifres uma beleza que impunha realeza e majestade, além de ser um símbolo masculino pois, em muitas das espécies de mamíferos, os machos têm os chifres maiores que as fêmeas e quanto maior o chifre mais imponente o animal se torna.
De acordo com a escritora Margaret Murray em seu livro "O Deus das Feiticeiras", publicado em 1933 ("The God of The Witches"), quando Roma começou a expandir o seu Império e a registrar os costumes pagãos, chamaram de "Cernunnos" o deus cultuado na Gália (atual França) cujo nome significa "aquele que tem chifres". Ainda de acordo com a doutora Murray, o que tinha valor na Gália também valia para as Ilhas Britânicas e, conforme citam alguma fontes eclesiásticas, o culto ao deus chifrudo era muito comum na Bretanha medieval, assim como vestir-se como um animal selvagem usando chifres (parte de rituais pagãos). O que era abominável e demoníaco segundo a Igreja.
O nome Cernunnos aparece no Piliers des Nautes, um bloco de pedra que data do primeiro século d.c que pertenceu a um templo gallo-romano da antiga cidade de Lutetia (atual París). Nela está escrito com letras romanas "Cernvnnos" acima da imagem do deus chifrudo. Algo interessante é que este bloco foi encontrado nas fundações da Catedral de Notre Dame em 1770. 
O chifrudo seria, portanto, o deus celta das feiticeiras, embora não seja o único já que os celtas eram politeístas. Portanto, não existia um único Deus, mas Cernunnos representava a natureza masculina e a fertilidade em sua essência,  numa deidade meio homem meio animal e de aparência selvagem.
Mas, por que o "Deus das Feiticeiras? A resposta é: por assimilação ao diabo.





Afinal, ele é o Diabo?


Definitivamente não, mas para os cristãos era o mais próximo que se chegava de um e, como as feiticeiras eram, para a Igreja, "adoradoras do demônio" ele era uma representação perfeita do líder de todos os anjos caídos. Por ser um deus selvagem, sexual, sem pudores (como os animais) e que vive na Terra, ele se enquadrou exatamente no estereótipo buscado por aqueles que acreditavam na existência de um diabo. Contudo, as denominadas bruxas jamais acreditaram neste ser maligno que os cristãos tomaram como o opositor de Deus.
O Diabo Medieval
Mas a figura do diabo como é vista em nossos dias não é tão antiga quanto o personagem que até hoje é mais temido do que o próprio Deus cristão. Foi somente na idade média que este anjo mau adquiriu chifres, garras, rabo e asas, primeiramente numa associação ao deus Pan que muitos julgavam ser o autor dos males que assolavam a sociedade antiga,  foi também nesta época que a associação dele ao sexo se tornou mais frequente. Diziam que ele era capaz de se materializar, seduzir e corromper as mulheres e que ele as usava com mais facilidade, pois a mulher era mais propensa ao pecado do que o homem,  sendo através de uma mulher (Eva) que o mal entrou no mundo.
Esta ideia se manteve até Renascimento, mas figura de Satanás após este período foi deixando de ser bestial e feia e ele passou a ser retratado de modo mais humano e atraente. E quanto mais atraente se tornava, mais sedutor e corrupto, e diante da "caça as bruxas" seria necessário uma justificativa para condena-las. Portanto, o diabo chifrudo se tornou o adorado das bruxas e a divindade celta que mais se assemelhava a ele era Cernunnos.
Muitos devem se perguntar: por quê o celta e não o romano, ou grego? Por um motivo muito simples: os celtas, tanto da Gália quanto da Bretanha, foram os que mais resistiram ao Império Romano e também a nova doutrina. Tal resistência manteve vivo muitos dos cultos pagãos nas comunidades do Oeste Europeu e principalmente das Ilhas Britânicas.
E assim, uma divindade ligada à fertilidade e a natureza se tornou um malévolo ser de origem cristã, e uma deidade pagã se transformou num "verdadeiro" deus das feiticeiras.




quinta-feira, 9 de junho de 2016

A Palma e o Lírio - Pureza e Martírio


Muitas vezes me perguntaram por quais motivos vemos nas imagens dos santos católicos estas duas plantas e aposto que grande parte dos fiéis cristãos também não sabem ou nem mesmo se questionam ou buscam compreender o significado destes ícones.
Não raramente, se vê nas imagens, ícones ou pinturas que retratam os grandes santos do catolicismo, ora o lírio ora o ramo de palmeira. Através destas plantas simbólicas, podemos conhecer um pouco mais da vida destes personagens.
Santo Antonio de Pádua
O Lírio branco (Lirium candidum), é uma espécie que está relacionada à pureza e a virgindade, portanto, se na imagem o santo aparece segurando um lírio, é sinal de que viveu em castidade até o final da vida, se abstendo de quaisquer tipos de relações sexuais. É o caso de Santo Antônio de Pádua, Santa Clara e São José (reza a lenda que este foi casto até a morte, mantendo a castidade de sua esposa - a Virgem Maria). Algumas imagens de Nossa Senhora também são representadas com este ítem, como é o caso de Nossa Senhora da Anunciação. O lírio branco é sinal de penitência e abstinência daqueles que escolheram deixar de lado os desejos da carne.
Quanto à palma, que especificamente se trata de uma folha de Palmeira Fenix (Phoenix dactylifera), simboliza o martírio do santo, aqueles que doaram a vida em nome de Cristo e da Igreja, preferindo a tortura e a morte violenta à renúncia da fé. Temos muitos exemplos de santos populares cujas imagens carregam o ramo de mártir nas mãos. Exemplo destes são: Santo Expedito, São Cosme e São Damião, Santa Catarina de Alexandria, Santa Luzia e Santa Bárbara.
Estes dois símbolos são representações de como viveram, ou morreram, os santos cristãos e há séculos figuram as imagens para que os fiéis possam associar e lembrar daqueles que, em nome da fé, renunciaram ao corpo físico em busca da santidade espiritual. Entretanto, nem todos os santos que foram mártires têm este símbolo acompanhando suas imagens: São Pedro morreu crucificado de cabeça para baixo e é representado segurando uma chave, já São Sebastião é representado  com as mãos amarradas e o corpo atingido por flechas. Há o caso também daqueles que possuem ambos os símbolos, como Santa Maria Goretti, Santa Filomena e, muitas vezes, Santa Agnes: mártires e castas segundo a doutrina católica.



Lirium Candido

O lírio, também conhecido como Açucena, há milênios está repleto de simbologias. Ele aparece na Mitologia Grega onde é criado pelas gotas do leite derramado da deusa Hera que, ao caírem sobre terra, se transformaram em flores brancas e perfumadas. A palavra lírium vem de 'lerios' que significa pálido e delicado, e candido vem do latim "branco", que também pode ser traduzido como puro, brando, inocente, imaculado ou incorrupto.
Pelos cristãos, Jesus é chamado de "Lírio dos Vales", numa associação ao trecho do "Cântico dos Cânticos" que exalta a pureza da flor, pois foi concebido sem pecado. Sua mãe Maria, de acordo com os evangelhos, pergunta ao anjo Gabriel como seria possível gerar um filho sem nunca ter "conhecido homem" e,  segundo a tradição católica, nem chegou a conhecer, permanecendo assim  imaculada.
É possível que a primeira imagem de Maria onde ela aparece junto a um lírio seja a do século XIV que se encontra na Catedral de Siena e foi pintada Simone Martini, um pintor italiano do período gótico. Posteriormente, a Anunciação foi retratada por grandes nomes da arte, como Botticelli, Rafael e Michelangelo. Há também a Madona dos Lírios, uma bela obra do pintor francês William-Adolphe Bouguereau. 
Mas, sem dúvidas, o quadro mais famoso é do renascentista Leonardo da Vinci, onde os lírios aparecem não somente nas mãos do anjo como em todo o jardim sob ele. A partir do Renascimento, as imagens de São Gabriel passaram a retratar o  arcanjo segurando o lírio branco - a flor que ele entrega à virgem Maria quando anuncia que esta carrega no ventre o filho de Deus. 


"A Anunciação"  de Leonardo da Vince - Século XV
 


Tamareira - A Palmeira Fenix

É, particularmente, minha palmeira favorita: a mais bonita, de folhagem mais vistosa e de estirpe mais ornamental. Sua origem ainda é contraditória, há quem diga que tem suas raízes no norte da África, outros alegam que é do oriente da Asia, mais especificamente na península arábica. Na realidade Phoenix é um gênero de 14 espécies de palmeiras também conhecidas como 'Palmeiras do Deserto', sendo bem comuns nos climas áridos da região próxima ao mediterrâneo. Seu fruto, a tâmara, tem sabor agridoce e é uma importante fonte de subsistência para os povos do oriente médio e do Sahara. Há quem diga que um beduíno pode enfrentar três dias de caminhada com uma única tâmara: no primeiro dia ele come a pele, no segundo o fruto e no terceiro o caroço. Com ela é possível fazer doces, geleias, licores, vinagres e álcool. 
Os caldeus (povos da antiga Mesopotâmia) a veneravam como a "árvore da vida", por tudo o que ela podia oferecer como alimento e ser uma das poucas espécies que resistem às temperaturas extremas, em solo arenoso, pobre e, muitas vezes, de alta salinidade.
As tamareiras também são aquelas que indicam os Oasis, regiões férteis cuja presença de àgua é muitas vezes a salvação daqueles que andam pelas dunas hostis dos desertos. Ao avista-las em agrupamento, os viajantes têm a esperança de que logo poderão matar a sede e descansar.
A palavra palmeira faz menção à palma da mão, pois as folhas assemelham-se a uma palma aberta. Phoenix provém de phoinix (grego) que, segundo a mitologia, era o nome da ave que renascia das próprias cinzas. De acordo com algumas lendas, era onde a ave fazia seu ninho, mas há estudiosos que acreditam que esta associação se deve à semelhança entre a as folhas da palmeira e as asas abertas de uma ave gigante. 
É possível que a relação entre a palma e os mártires tenha raízes nesta alegoria entre a morte e o renascimento. Os mártires abriram mão de suas vidas terrestres com a crença de uma próxima vida que se daria no céu.