sábado, 16 de fevereiro de 2019

Ossain - O Senhor das Folhas

Orixá Ossain
Acredito que há algum tempo estou devendo uma postagem que aborde mitos africanos, e muitos têm a impressão de que sou ligado às religiões pagãs européias como o Druidismo e à Wicca. Bem, é notável que minha admiração aos celtas é maior do que quaisquer outras culturas da antiguidade e meus estudos sempre esteveram mais voltados aos mitos da Europa antiga, embora aprecie demais outras culturas.
Devo dizer que não tenho religião e, embora tenha sido iniciado há alguns anos numa fraternidade pagã fundada na Irlanda, também não me considero um pagão ou bruxo, ou mago, ou quaisquer outras coisas senão um estudioso, curioso e teórico não acadêmico - sem ligação alguma com qualquer culto de qualquer instituição, doutrina religiosa ou filosófica. É claro que admiro muitos deles, assim como discordo de muitos dogmas e fundamentos da maioria deles, mas procuro respeitar pois sei que, para muitos, isto é importante.
Filha de Ossain
Como brasileiro legítimo, sou miscigenado. Tenho ascendência européia e indígena e, provalmente, africana. E tenho muito orgulho desta miscegenação, de um país que agregou tantas culturas e guarda tantas histórias de povos tão diversos, de cores e de culturas tão destintas.
O Brasil foi responsável por manter vivo muitos dos cultos trazidos pelos negros, uma vez que muitas nações africanas foram extintas nestes séculos de exploração e com elas as suas deidades. O culto aos Orixás vieram com os nossos ancestrais escravos, intrínsecos em suas almas, pois como se diz no Candomblé "Uma vez feito o Orí (cabeça) o Ori será sempre do Orixá". A pessoa passa a viver o Orixá na essencia de toda a energia que esta força traz.Entrei neste este assunto porque Ossain, assim como todos os outros, é repleto de características próprias - assim como todos os seres humanos, animais, vegetais e tudo que existe no planeta. 
É  importante salientar que o Orixá é isto: uma força, uma energia. O Orixá não é um espírito humano ou animal, não é uma pessoa desencarnada, não é um encosto e nem baixa em alguém. O Orixá não entra, ele sai, se manifesta de dentro para fora. Portanto, quaisquer relações destas deidades com espíritos e entidades é mera falácia. E digo isto porque convivo há anos com pessoas do Candomblé, as quais me ensinaram muito a respeito desta religião e de como são cultuadas estas divindades para eles sagradas. 
Ossain Humanizado
Os Orixás estão mais próximos de forças da natureza e se assemelham muito mais aos ritos xamânicos indígenas do que ao espiritismo e a umbanda, como muitos acreditm. Nas casas de Candomblé, os espíritos (eguns) não são cultuados como acontece nestes outros segmentos espiritualistas.
Para que melhor se compreenda o que significa o Orixá para o Candomblé, pode-se utilizar as seguinte descrição: trata-se de uma energia da natureza, móvel (por isso a música e a dança fazem parte dos rituais), transformadora e misteriosa. 
As pessoas não entram em transe quando "recebem" o Orixá, mas entram em transe quando a força do Orixá é potencializada através dos cantos e dos ritos. Sob o ponto de vista do Candomblé, ele se revela ativamente, se exterioriza.


A Energia e a Natureza de Ossain


Ossain é a força das plantas

Iniciei este post tentando explicar esta força chamada Orixá, não porque saiba o que ela realmente é, pois não sou iniciado no rito, mas por convivência com filhos de santo e porque me fascinam estes mitos, principalmente quando estão relacionados à natureza em sua essência.
Falar de Ossain (ou Osanha) é adentrar um tema que muito me fascina, pois ele simboliza a energia das matas e o poder curativo das sementes, das folhas, das raizes, dos caules, e da pele das árvores. Ele é a floresta e o vegetal, é ele a força que guarda o segredo da dose exata que faz uma planta curar ou intoxicar.
Por tais qualidades ele também é chamado de grande médico das matas e alguns o chamam de feiticeiro verde, pois só ele conhece profundamente o "axé" (poder de cura) das folhas.
O Candomblé, assim como outras religiões ancestrais, não é maniqueísta e não divide o Universo em forças do bem e do mal, portanto, os Orixás não são essências boas ou más. Os Orixás, assim como os deuses gregos, celtas, vikings, entre outros, têm suas qualidades e também os seus "defeitos" (peculiaridades), embora sejam apenas características que têm bastante ligação com a própria Natureza e o Universo. A morte pode ser terrível para alguns e reconfortante para outros, a mesma chuva que faz germinar as sementes pode destruir as plantações, portanto o que é bom ou mau não pode ser colocado numa balança separatista. 
Uma questão que me incomoda em alguns sincretismos é tentar sistemarizar o Orixá nestas condições. Para alguns, Exu é considerado um ser "de esquerda" que muito se assemelha ao demônio cristão, e Oxum é chamada de "mamãe" como se fosse a benevolente Virgem Maria. Mas o mito conta que Exú é o  Orixá que abre os caminhos, que leva a mensagem e é também protetor, já Oxum é vaidosa, astuta e abandona o único filho (Logunedé) para viver com Xangô. Logo, Exú pode fazer muito bem e Oxum pode fazer muito mal, dependendo do ponto de vista.
Num dos mitos deste Orixá conta-se que ele nutria certo ressentimento de Orunmilá  (Ifá - o Orixá Oráculo) pois havia sido escravo deste adivinho. Assim sendo, o feiticeiro verde procurava, secretamente, muitas formas de causar infortúnios e transtornos a Ifá. Orunmilá pediu a Xangô (Orixá do Fogo) para que este lhe auxiliasse a descobrir o que estava por trás de tantos tormentos. Xangô aconselhou Olunmirá a fazer um ebó (oferenda) acendendo doze mechas de algodão junto com doze pedras de raio (edum ará) e logo em seguida invocar o poder do fogo. Desta forma, o que estivesse oculto seria revelado.
Assim que Orunmilá invocou o fogo, Ossain, que andava pelas florestas, foi atingido por um raio. A força que caiu sobre ele foi tamanha que amputou uma de suas pernas. Além de ter sido descoberto, Ossain ficou apenas com um dos membros.
Ewé
Esta é uma das lendas que justificam o Orixá ser representado apenas com uma das pernas e muitos alegam que a figura de  Ossain deu origem ao Saci das lendas Brasileiras. Por ter apenas uma perna, Ossain só pode andar saltando.
Outros dirão que Ossain só tem uma perna pois seu corpo é como uma árvore: seu pé é a raiz, sua perna é o tronco, seus braços são os galhos e seus cabelos são as folhas. Uma interessante forma de assimilar este Orixá com os seres mais proeminentes e importantes das matas. 
Algo interessante em se notar é que aqui no Brasil utilizamos a expressão "Pé" quando queremos designar uma árvore qualquer (pé de manga, pé de abacate, pé de ipê), como se este vegetal e sustentasse apenas por um pé, assim como Ossain.


O Feiticeiro e o Caçador


Oxossi & Ossain

"Oxóssi vivia com sua mãe Iemanjá e com seu irmão Ogum.
Ogum cultivava o campo e Oxóssi trazia caça da florestas.
A casa de Iemanjá era farta. Mas Iemanjá tinha maus pressentimentos e consultou o babalaô.
O adivinho lhe disse que proibisse Oxóssi de ir caçar nas matas, pois Ossaim, que reinava na floresta, podia aprisionar Oxóssi.
Iemanjá disse ao filho que nunca mais fosse à floresta. Mas Oxóssi, o caçador, era muito independente e rejeitou os apelos da mãe. Continuou indo às caçadas.
Um dia ele encontrou Ossaim, que lhe deu de beber um preparado. Oxóssi perdeu a memória.
Ossaim banhou o caçador com abôs misteriosos e ele ficou no mato morando com Ossaim.
Ogum não se conformava com o rapto do irmão. Foi à sua procura e não descansou até encontrá-lo. Finalmente livrou Oxóssi e o trouxe de volta a casa.
Iemanjá, contudo, não perdoou o filho desobedinete e não quis recebe-lo em casa. Ele voltou para as florestas, onde até hoje mora com Ossaim.
Ogum, por sua vez, brigou com a mãe e foi morar na estrada. 
Iemanjá passou a sentir demais a ausência dos dois filhos que ela praticamente expulsara de casa.
Tanto chorou Iemanjá, tanto chorou, que suas lágrimas ganharam curso, se avolumaram, e num rio (que que se tornou o mar) Iemanjá se transformou."


Iemanjá, Oxóssi e Ossain


* Texto retirado do Livro "Mitologia dos Orixás" de Reginaldo Prandi.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Green Man - O Homem Verde

Após tanto tempo sem postar, acredito que deva alguns esclarecimentos aos leitores deste blog. Ocorre que no ano de 2018 estive dedicado quase que exclusivamente ao canal GreenMan Valley do Youtube. O canal exigiu parte considerável de meu tempo e a busca por novos conteúdos de música celta, clássica, instrumental e new age acabou se tornando um novo trabalho para mim.  Considero, todavia, que valeu bastante a pena pois obtive grandes êxitos através dele e com mais de 100 Mil inscritos, posso dizer que meu emprenho foi apreciado e a devolutiva bastante animadora. Lamentavelmente, por forças maiores, preferi interroper as atividades do Canal
Contudo, minha apreciação pelas plantas, pelas mitologias e pela antropologia não mudou, apenas escolhi me dedicar por um tempo à musica, arte que não menos me fascina.
O Canal "Vale do Homem Verde" (GreenMan Valley) surgiu como uma forma de compartilhar o que eu considero boa música e divulgar sons que possam, de alguma maneira, elevar e apurar o gosto músical de ouvintes que apreciam o estilo.  A Escolha pelo nome 'GreenMan' vem de minha admiração por este ser mitológico cujas origens ainda são questionadas.
Acredita-se que a primeira pessoa a utilizar o termo "Homem Verde" foi a estudiosa Lady Raglan em um artigo de 1939 que abordava a relação destas cabeças folhadas com a arquitetura religiosa. Hoje sabe-se que estas figuras são mais antigas do que as igrejas cristãs, descobriu-se antigas imagens de cabeças semelhantes na Índia e no Oriente Médio e o pesquisador Mike Man sugeriu que este símbolo tenha origem em algum lugar da Ásia Menor, posteriormente sendo levado para a Europa Ocidental por escultores viajantes. Muitos acreditam que fora os Cavaleiros Templários os responsáveis por propagar estas imagens, já que as as Igrejas Góticas estão repletas delas e não se pode negar que estas esculturas estão muito mais presentes em templos cristão do medievo do que em outros sítios arqueológicos. Na mistica Catedral de Chartres, na França, foram esculpidas cerca de 70 figuras do Green Man. 
Os franceses o chamam de "Le feuillou, e na Alemanha é chamado de "Blattgesicht" e entre os povos das Ilhas Britânicas também é conhecido como "Wise Green Man" (Sábio Homem Verde).


O SÁBIO HOMEM VERDE



Talvez o chamem de sábio por dois motivos: o primeiro é devido à sua aparência que, quase sempre, assemelha-se a um homem velho e, por ser repleto de folhas, acredita-se que nele está oculto antigos conhecimentos da Natureza e das antigas tradições. Não raramente ele foi relacionado ao mitológico Mago Melin, que vivia escondido nas florestas e possuia conhecimento e a sabedoria dos druídas.
De acordo com o escritor Toby Lester, muitos mestres contrutores da Idade Média eram artesãos, escultores e pedreiros que, embora peritos no que faziam, perteciam às classes mais baixas, deixando poucos documentos e sendo raramente mencionados como responsáveis pelas obras. Quem levava o crédito pelas construções eram, normalmente, os contratantes membros do clero e da nobreza. Supõe-se, contudo, que as cabeças foliates eram empregadas em colunas e capiteis das igrejas por estes construtores sem prévia autorização. Como não haviam registros que pudessem justificar tais entalhes, os motivos até hoje são questionados.
Sabe-se, entretanto, que muitas das Igrejas Cristãs foram construídas em cima de bosques sagrados e locais de culto pagão, e que muitos dos camponeses mantinham suas crenças em segredo, celebrando os antigos ritos mesmo após o advento do cristianismo. Talvez esta tenha sido um maneira de se lembrar das antigas deidades das natureza, ou um gesto de rebeldia num tempo onde expressar crenças diferentes do que era apregoado era motivo de perseguição e morte. 
O homem verde, o espírito ancestral das florestas, estaria oculto alí nos templos cristãos e jamais poderia ser esquecido ou subjulgado facilmente pela nova religião. Muitos alegam que esta foi então a sábia forma que os antigos espíritos encontraram de estar presentes. 


O CAVALEIRO VERDE DE CAMELOT


Acredita-se que uma das primeiras histórias escritas relacionadas ao homem verde date do século XIV e hoje é conhecida como "Sir Gwaine and The Green Knight". O conto narra um episódio ocorrido em Camelot (Sir Gwaine e o Cavaleiro Verde) na corte do lendário Rei Arthur. A história abaixo foi resumida para que pudesse ser contada de forma mais sucinta.

"Em Camelot, no dia de Ano Novo, entrou no salão de Arthur um grande guerreiro verde em um cavalo imponente, segurando um ramo de azevinho em uma mão e um imenso machado de guerra na outra. Sua pele era verde, seu cabelo era verde, e até mesmo seu cavalo era verde. Ele tinha vindo performar o que chamou de ´prova de coragem´. Todos da Távola Redonda estremeceram diante daquele ser que parecia ser de outro mundo e repleto de poderes mágicos capazes de derrotar dezenas num só sopro de seu desejo.
De acordo com o cavaleiro, qualquer campeão que ousasse poderia atacar-lhe e tentar vence-lo, porém, um ano mais tarde o campeão submeter-se-ia a uma nova luta e receberia um golpe semelhante. Gawain, compreendendo que aquele ser podia destruir o reino de Arthur, aceitou o desafio e assim decidiu enfrenta-lo na tentativa de salvar o reino. Gwaine (Gawain), que era exímio guerreiro, num só golpe de sua espada atingiu o cavaleiro verde cortando-lhe a cabeça. Todos ficaram boquiabertos com a rapidez com que o jovem vencera o duelo.
O Cavaleiro Verde calmamente pegou a cabeça que rolou pelo chão pelos cabelos e virou o rosto para Sir Gwaine e com as pálpebras arregaladas disse para que campeão o encontrasse na Capela Verde um ano mais tarde , pois seria a sua vez de receber um golpe semelhante.
Como Gwain era um homem honrado e cumpridor de sua palavra, temendo também ser aquela alguma maldição que pudesse atingir Camelot, exatamente um ano após este evento o cavaleiro de Arthur foi até a Capela Verde a fins de enfrentar novamente o Cavaleiro Verde.
Chegando lá,  Gwaine deparou-se mais uma vez com o sinistro Homem Verde e, diante dele, desnudou seu pescoço para que pudesse logo receber o golpe, já que fora assim que havia ganhado a luta. O Cavaleiro  levantou o Machado e ao lançar o golpe para decaptar Gwaine, parou com a lâmina próxima ao pescoço do nobre guerreiro de Arthur e recuou.
Gwaine havia passado pelo teste. O Cavaleiro Verde então, proferindo belas palavras, disse a Gwaine que seu nome seria lembrado para sempre, pois cumprira com sua promessa e demonstrara coragem em sua conduta, sendo capaz inclusive de doar sua vida pelo reino. E foi assim que Gwain se tornou um dos homens mais admirados em Camelot e entre todos homens e fadas (Avalon) e seu nome é lembrado até hoje como símbolo de honra, virtude e bravura."



domingo, 17 de dezembro de 2017

São Nicolau - Papai Noel e Santa Claus



Nestes ultimos tempos estive dedicado à musica que é uma das minhas grandes paixões, com mais um Canal no Youtube, voltado principalmente à música Celta. Nestes últimos dias, quase exclusivamente às Canções Natalinas (Carols) que me levaram a estudar muitos aspectos desta celebração anual, entre elas o espetacular mito do Papai Noel.
É sabido que sua origem está no Bispo Nicolau de Mira, ou Nicolau de Bari, que nasceu no ano 280 d.c ( há fontes que citam 270 d.c) onde hoje é a Turquia, e faleceu em 343 d.c. no dia 06 de Dezembro. Portanto, a festa do Santo Padroeiro da Europa era celebrada em Dezembro (data de morte) e, diga-se de passagem, uma grande festa, onde as relíquias (restos mortais) de Nicolau eram veneradas na Basílica de Bari na Itália. 
S. Nicolau de Bari - Patrono os Navegantes
Foi devido à estas relíquias que muitos acontecimentos posteriores fizeram com que a figura de Papai Noel surgisse.
Sendo ele o santo mais popular da Europa na Idade Média, a peregrinação até Bari no mês de Dezembro levava milhares de pessoas aos restos mortais do venerável bispo, pessoas de todo o continente desejavam ter acesso à um líquido perfumado, também chamado de maná, que fluía da tumba do Santo. Diziam que tal fluído tinha poderes curativos e milagrosos. A Igreja Católica, vendo o grande interesse da população pelo "maná" miraculoso, passou então à comercializar o sagrado líquido. Acredita-se que este foi o início do comércio de relíquias e venda de indulgências que se tornaram tão comuns nos séculos que se seguiram por toda a Europa.
Devido a este comércio de indultos e culto às relíquias , no ano de 1517, um monge agostiniano deu início à Reforma Protestante. Acredita-se que a veneração a São Nicolau e seus restos mortais era uma das que mais incomodava e revoltava Martinho Lutero e foi um dos primeiros cultos que ele tratou de repudiar e abolir.
Mas Lutero sabia que seria muito difícil o povo europeu deixar de celebrar a Festa de São Nicolau em Dezembro, já que era muito popular e diversas igrejas pela Europa eram dedicadas ao santo. Os protestantes então tentaram transferir as festividades do início do mês para o dia de Natal, e como São Nicolau era também patrono das crianças, um símbolo infantil teria que existir para gradativamente as pessoas se adequarem, sem romper definitivamente com as tradições arraigadas no seio das comunidades, neste caso,  foi escolhido o menino Jesus como ícone e a ele era dedicada às festividades deste período. 
Father Christmas
Ocorre que nem todos os países que aderiram ao protestantismo incorporaram as novas tradições luteranas. A Inglaterra, que se tornou anglicana, e a Holanda, com base calvinista, mantiveram a velha imagem de São Nicolau, embora algumas transformações foram ocorrendo com o tempo.
Na Inglaterra ele se transformou, séculos depois, em Father Christmas e na Holanda o nome de São Nicolau se manteve "Sinter klass", pois este era também o patrono dos marinheiros e a Holanda prezava demais sua tradição e frota marítima. 
Os EUA tinham colonos ingleses e holandeses e foram estes últimos que levaram a figura de "Sinterklass" ao Novo Mundo. A palavra holandesa Sinterklass se converteu em "Santa Claus" no inglês falado na América. 
Em 1823 o escritor Clement Clarke Moore escreveu um poema entitulado " Twas the Night Before Christmas", traduzido como "Uma Visita de São Nicolau". Nele, Moore cria um personagem de fantasia, que aparece na véspera de Natal num trenó puxado por renas e entra pela chaminé trazendo presentes às crianças. Este poema foi o elo de ligação entre o Velho São Nicolau e o vindouro Papai Noel.


Uma Visita de São Nicolau

Sinterklass e Papai Noel

A Holanda tem especial fascínio pela figura de São Nicolau (Sinterklass), até hoje a festa do dia 05 de Dezembro (véspera do dia oficial do santo) é uma celebração das mais tradicionais do país. Mas este país tem sua própria concepção deste personagem, que acabou mesclando aspectos do deus germano Wodan (equivalente a Odin).
De acordo com a lenda, Wodan, o Deus Pai da mitologia germana, cavalgava pelos Céus em seu cavalo presenteando os bons e punindo os maus. Então São Nicolau ganhou um cavalo  que cavalga pelos ares e deixa presentes que caem pela chaminé.
O hábito de presentear de deu porque, de acordo com narrativas, Nicolau, sendo de uma família abastada, ajudou um cidadão que não tinha dinheiro para o dote de suas filhas, sem opção, ele teria então que vende-las como escravas. Nicolau decidiu então dar-lhes o dinheiro lançando as moedas pela janela da casa. Cada noite ele lançava uma bolsa com  o valor necessário para o dote de cada uma das filhas. Mas, na terceira noite, foi descoberto pelo beneficiado e a notícia acabou se espalhando.
No século XII, algumas freiras francesas, inspiradas pelos atos de São Nicolau, passaram a distribuir anonimamente alimentos aos mais necessitados no dia de São Nicolau. Muitos acabavam acreditando que era o próprio Santo que deixava os presentes.
Esta prática se difundiu por vários cantos da Europa e Dezembro se tornou o mês onde a caridade costumava ser praticada.
Wodan 
Quando a tradição Holandesa foi para os EUA, no século XVII, novos ícones foram agregados - provavelmente absorvidos de outros países. Renas nórdicas substituiriam o cavalo; elfos ajudantes substituiram o holandês Zwart Piet (um auxiliar de Sinterklaas); a mamãe Noel foi uma criação da americana Katharine Lee Bates no século XIX e sua casa no Polo Norte foi uma escolha inspirada na lenda inglesa de que ele vivia na Lapônia.
O nome Noel vem do francês onde a palavra significa Natal (Natividade de Cristo) e ele assim foi denominado no Brasil: Papai Noel. Já em Portugal ele é conhecido como Pai Natal.
Embora pareça estranha, a imagem do bom velhinho barbudo, de gorro e roupa vermelha como é conhecido hoje, foi uma criação da Coca-Cola que, nos anos 30, pediu  ao ilustrador Haddon Sundblom para criar uma série de anúncios com o Papai Noel, inspirado nas cores da marca.
A propaganda foi tão bem-sucedida que até hoje é a imagem mais difundida no Natal.

Papai Noel - Coca-Cola

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Cernunnos - O Deus das Feiticeiras

Hoje se celebra o "Dia das Bruxas" e muitos comemoram esta data de forma bastante fantasiosa, misturando as feiticeiras aos monstros das histórias fantásticas, fantasmas, vampiros e demônios assustadores. Mas a grande maioria desconhece as origens desta miscelânea e muitos se perguntam se a chamadas "bruxas" acreditam em deus ou cultuam mesmo o diabo. Bem, esta é um postagem para esclarecer alguns mitos em relação as deidades das feiticeiras.
Primeiramente é preciso dizer que a bruxaria é algo complexo, que não se anula em um único texto, pois há vários períodos históricos, locais diversos e muitas religiões e práticas pagãs que foram colocadas todas em um mesmo caldeirão onde o culto foi denominado "bruxaria" e "feitiçaria".
A veneração às divindades chifrudas existe deste tempos remotos que antecedem, e muito, ao cristianismo. Babilônicos, egípcios, gregos, entre outros povos indo-europeus, já viam nos chifres uma beleza que impunha realeza e majestade, além de ser um símbolo masculino pois, em muitas das espécies de mamíferos, os machos têm os chifres maiores que as fêmeas e quanto maior o chifre mais imponente o animal se torna.
De acordo com a escritora Margaret Murray em seu livro "O Deus das Feiticeiras", publicado em 1933 ("The God of The Witches"), quando Roma começou a expandir o seu Império e a registrar os costumes pagãos, chamaram de "Cernunnos" o deus cultuado na Gália (atual França) cujo nome significa "aquele que tem chifres". Ainda de acordo com a doutora Murray, o que tinha valor na Gália também valia para as Ilhas Britânicas e, conforme citam alguma fontes eclesiásticas, o culto ao deus chifrudo era muito comum na Bretanha medieval, assim como vestir-se como um animal selvagem usando chifres (parte de rituais pagãos). O que era abominável e demoníaco segundo a Igreja.
O nome Cernunnos aparece no Piliers des Nautes, um bloco de pedra que data do primeiro século d.c que pertenceu a um templo gallo-romano da antiga cidade de Lutetia (atual París). Nela está escrito com letras romanas "Cernvnnos" acima da imagem do deus chifrudo. Algo interessante é que este bloco foi encontrado nas fundações da Catedral de Notre Dame em 1770. 
O chifrudo seria, portanto, o deus celta das feiticeiras, embora não seja o único já que os celtas eram politeístas. Portanto, não existia um único Deus, mas Cernunnos representava a natureza masculina e a fertilidade em sua essência,  numa deidade meio homem meio animal e de aparência selvagem.
Mas, por que o "Deus das Feiticeiras? A resposta é: por assimilação ao diabo.





Afinal, ele é o Diabo?


Definitivamente não, mas para os cristãos era o mais próximo que se chegava de um e, como as feiticeiras eram, para a Igreja, "adoradoras do demônio" ele era uma representação perfeita do líder de todos os anjos caídos. Por ser um deus selvagem, sexual, sem pudores (como os animais) e que vive na Terra, ele se enquadrou exatamente no estereótipo buscado por aqueles que acreditavam na existência de um diabo. Contudo, as denominadas bruxas jamais acreditaram neste ser maligno que os cristãos tomaram como o opositor de Deus.
O Diabo Medieval
Mas a figura do diabo como é vista em nossos dias não é tão antiga quanto o personagem que até hoje é mais temido do que o próprio Deus cristão. Foi somente na idade média que este anjo mau adquiriu chifres, garras, rabo e asas, primeiramente numa associação ao deus Pan que muitos julgavam ser o autor dos males que assolavam a sociedade antiga,  foi também nesta época que a associação dele ao sexo se tornou mais frequente. Diziam que ele era capaz de se materializar, seduzir e corromper as mulheres e que ele as usava com mais facilidade, pois a mulher era mais propensa ao pecado do que o homem,  sendo através de uma mulher (Eva) que o mal entrou no mundo.
Esta ideia se manteve até Renascimento, mas figura de Satanás após este período foi deixando de ser bestial e feia e ele passou a ser retratado de modo mais humano e atraente. E quanto mais atraente se tornava, mais sedutor e corrupto, e diante da "caça as bruxas" seria necessário uma justificativa para condena-las. Portanto, o diabo chifrudo se tornou o adorado das bruxas e a divindade celta que mais se assemelhava a ele era Cernunnos.
Muitos devem se perguntar: por quê o celta e não o romano, ou grego? Por um motivo muito simples: os celtas, tanto da Gália quanto da Bretanha, foram os que mais resistiram ao Império Romano e também a nova doutrina. Tal resistência manteve vivo muitos dos cultos pagãos nas comunidades do Oeste Europeu e principalmente das Ilhas Britânicas.
E assim, uma divindade ligada à fertilidade e a natureza se tornou um malévolo ser de origem cristã, e uma deidade pagã se transformou num "verdadeiro" deus das feiticeiras.




quinta-feira, 9 de junho de 2016

A Palma e o Lírio - Pureza e Martírio


Muitas vezes me perguntaram por quais motivos vemos nas imagens dos santos católicos estas duas plantas e aposto que grande parte dos fiéis cristãos também não sabem ou nem mesmo se questionam ou buscam compreender o significado destes ícones.
Não raramente, se vê nas imagens, ícones ou pinturas que retratam os grandes santos do catolicismo, ora o lírio ora o ramo de palmeira. Através destas plantas simbólicas, podemos conhecer um pouco mais da vida destes personagens.
Santo Antonio de Pádua
O Lírio branco (Lirium candidum), é uma espécie que está relacionada à pureza e a virgindade, portanto, se na imagem o santo aparece segurando um lírio, é sinal de que viveu em castidade até o final da vida, se abstendo de quaisquer tipos de relações sexuais. É o caso de Santo Antônio de Pádua, Santa Clara e São José (reza a lenda que este foi casto até a morte, mantendo a castidade de sua esposa - a Virgem Maria). Algumas imagens de Nossa Senhora também são representadas com este ítem, como é o caso de Nossa Senhora da Anunciação. O lírio branco é sinal de penitência e abstinência daqueles que escolheram deixar de lado os desejos da carne.
Quanto à palma, que especificamente se trata de uma folha de Palmeira Fenix (Phoenix dactylifera), simboliza o martírio do santo, aqueles que doaram a vida em nome de Cristo e da Igreja, preferindo a tortura e a morte violenta à renúncia da fé. Temos muitos exemplos de santos populares cujas imagens carregam o ramo de mártir nas mãos. Exemplo destes são: Santo Expedito, São Cosme e São Damião, Santa Catarina de Alexandria, Santa Luzia e Santa Bárbara.
Estes dois símbolos são representações de como viveram, ou morreram, os santos cristãos e há séculos figuram as imagens para que os fiéis possam associar e lembrar daqueles que, em nome da fé, renunciaram ao corpo físico em busca da santidade espiritual. Entretanto, nem todos os santos que foram mártires têm este símbolo acompanhando suas imagens: São Pedro morreu crucificado de cabeça para baixo e é representado segurando uma chave, já São Sebastião é representado  com as mãos amarradas e o corpo atingido por flechas. Há o caso também daqueles que possuem ambos os símbolos, como Santa Maria Goretti, Santa Filomena e, muitas vezes, Santa Agnes: mártires e castas segundo a doutrina católica.



Lirium Candido

O lírio, também conhecido como Açucena, há milênios está repleto de simbologias. Ele aparece na Mitologia Grega onde é criado pelas gotas do leite derramado da deusa Hera que, ao caírem sobre terra, se transformaram em flores brancas e perfumadas. A palavra lírium vem de 'lerios' que significa pálido e delicado, e candido vem do latim "branco", que também pode ser traduzido como puro, brando, inocente, imaculado ou incorrupto.
Pelos cristãos, Jesus é chamado de "Lírio dos Vales", numa associação ao trecho do "Cântico dos Cânticos" que exalta a pureza da flor, pois foi concebido sem pecado. Sua mãe Maria, de acordo com os evangelhos, pergunta ao anjo Gabriel como seria possível gerar um filho sem nunca ter "conhecido homem" e,  segundo a tradição católica, nem chegou a conhecer, permanecendo assim  imaculada.
É possível que a primeira imagem de Maria onde ela aparece junto a um lírio seja a do século XIV que se encontra na Catedral de Siena e foi pintada Simone Martini, um pintor italiano do período gótico. Posteriormente, a Anunciação foi retratada por grandes nomes da arte, como Botticelli, Rafael e Michelangelo. Há também a Madona dos Lírios, uma bela obra do pintor francês William-Adolphe Bouguereau. 
Mas, sem dúvidas, o quadro mais famoso é do renascentista Leonardo da Vinci, onde os lírios aparecem não somente nas mãos do anjo como em todo o jardim sob ele. A partir do Renascimento, as imagens de São Gabriel passaram a retratar o  arcanjo segurando o lírio branco - a flor que ele entrega à virgem Maria quando anuncia que esta carrega no ventre o filho de Deus. 


"A Anunciação"  de Leonardo da Vince - Século XV
 


Tamareira - A Palmeira Fenix

É, particularmente, minha palmeira favorita: a mais bonita, de folhagem mais vistosa e de estirpe mais ornamental. Sua origem ainda é contraditória, há quem diga que tem suas raízes no norte da África, outros alegam que é do oriente da Asia, mais especificamente na península arábica. Na realidade Phoenix é um gênero de 14 espécies de palmeiras também conhecidas como 'Palmeiras do Deserto', sendo bem comuns nos climas áridos da região próxima ao mediterrâneo. Seu fruto, a tâmara, tem sabor agridoce e é uma importante fonte de subsistência para os povos do oriente médio e do Sahara. Há quem diga que um beduíno pode enfrentar três dias de caminhada com uma única tâmara: no primeiro dia ele come a pele, no segundo o fruto e no terceiro o caroço. Com ela é possível fazer doces, geleias, licores, vinagres e álcool. 
Os caldeus (povos da antiga Mesopotâmia) a veneravam como a "árvore da vida", por tudo o que ela podia oferecer como alimento e ser uma das poucas espécies que resistem às temperaturas extremas, em solo arenoso, pobre e, muitas vezes, de alta salinidade.
As tamareiras também são aquelas que indicam os Oasis, regiões férteis cuja presença de àgua é muitas vezes a salvação daqueles que andam pelas dunas hostis dos desertos. Ao avista-las em agrupamento, os viajantes têm a esperança de que logo poderão matar a sede e descansar.
A palavra palmeira faz menção à palma da mão, pois as folhas assemelham-se a uma palma aberta. Phoenix provém de phoinix (grego) que, segundo a mitologia, era o nome da ave que renascia das próprias cinzas. De acordo com algumas lendas, era onde a ave fazia seu ninho, mas há estudiosos que acreditam que esta associação se deve à semelhança entre a as folhas da palmeira e as asas abertas de uma ave gigante. 
É possível que a relação entre a palma e os mártires tenha raízes nesta alegoria entre a morte e o renascimento. Os mártires abriram mão de suas vidas terrestres com a crença de uma próxima vida que se daria no céu.









 

sábado, 19 de dezembro de 2015

Os Reis Magos - Ouro, Incenso e Mirra


Às vésperas do Natal, festa da natividade de Jesus, já se vê muitas casas e árvores enfeitadas com luzes que simbolizam as estrelas da noite em que o Cristo nasceu. Três reis magos foram guiados por uma delas, a estrela mais brilhante de todas que conduzia até a pobre manjedoura de Belém, onde Maria e José se encontravam junto aquele que seria o Messias. Eles levavam presentes ao menino Deus e, ajoelhados, o adoraram.
Esta é uma narrativa emocionante, embora seja mais verdadeira para aqueles que acreditam nela do que para os estudiosos da cristandade. 
A breve história sobre estes sábios homens está em Mateus, 2,1:  "E, tendo nascido Jesus em Belém da Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do oriente a Jerusalém, dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no oriente, e viemos a adorá-lo."
Bem, há algo interessante neste trecho, pois não há nenhuma referência de que eram reis, assim como não há ao longo do texto nada que deixe evidente que eram três.
Posteriormente os magos foram denominados: Melchior, Balthassar e Gaspar. Estes nomes aparecem no mosaico da Catedral de Santo Apolinário, em Ravena (Itália), do Século VI. É provável que eles foram tirados no manuscrito grego "Excerpta Latina Barbari" do primeiro Século d.C. Mas como muito do que se pregou na Idade Média fazia parte do folclore popular ou tinha origem pagã, não há fontes fidedignas que façam ligação dos nomes em questão com os personagens do evangelho.
Segundo a tradiçao cristã, Melchior era persa, Balthassar era árabe e Gaspar era indiano. Uma outra tradição diz que um era negro, um era moreno e o outro caucasiano. Há também a história de que um era jovem, um de meia-idade e o outro já idoso. Esta última referência serviu de inspiração para o Mosaico da catedral de Ravena.

Balthassar, Melchior e Gaspar  - Mosaico da Cat. de Ravena - Séc XVI



Ouro, Franquincenso e Mirra


Eis o principal motivo pelo qual os magos foram enumerados posteriormente e definidos como três reis. Embora não haja nenhuma citação de que eram três ou mais. Está escrito em Mateus no capítulo 2, 11: " E, entrando na casa, acharam o menino com Maria sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra."
Bem, partindo do princípio que eram magos, é bem provável que pertenciam à nobreza, já que esta classe de sábios fazia parte desta casta. Também está escrito que eles abriram os tesouros e ofertaram ao menino, itens de grande valor na época, o que leva a crer que eram ricos. Se eram nobres e ricos podiam ser reis, mas é evidente que se fossem mesmo membros da realeza com tão alto título o evangelista não deixaria passar este detalhe.
 A crença popular diz que Gaspar levava o Ouro, Melchior o incenso e Balthassar a mirra. 
O ouro é, de todos os metais, o mais precioso e, na Idade Antiga, uma das principais moedas de troca já que não existia o dinheiro como foi concebido posteriormente. 
O incenso, também conhecido como Franquincenso (incenso-verdadeiro), é uma resina clara obtida da seiva da Boswelia sacra, árvore também conhecida como Olíbano-da-Somália ou simplesmente Olíbano (Leia no post "A Sarça Ardente - Acácia de Fogo"). Ao ser queimada, a resina libera um perfume que os antigos diziam acalmar a alma e purificar o espírito, por este motivo era muito utilizada nos templos e cerimônias.
A Mirra, assim como o incenso, é uma resina extraída de uma árvore, Commiphora myrrha, originária do norte da África e do Oriente Médio. Com ela se fazia o bálsamo aromático e tinha duas vezes mais valor que o ouro. O balsamo era usado para embalsamar os mortos e ungir o corpo, principalmente em ritos religiosos. 
Teólogos afirmam que os itens presenteados pelos magos têm significados específicos: o ouro representa a realeza do Messias, o Incenso o seu sacerdócio e a Mirra a sua unção.


Franquincenso e Mirra vendidos no Mercado Árabe



sexta-feira, 19 de junho de 2015

Ilex - O Rei Azevinho

Às vésperas do Solstício de Inverno aqui no hemisfério Sul, já se sente as temperaturas caírem consideravelmente, as pessoas ficarem mais reflexivas e algumas mais melancólicas. É como se estivesse em nossa memória genética que este é um tempo de introspecção, de silêncio, de guarda.
Nossos ancestrais europeus, ao observarem a paisagem hibernal podiam concluir que somente um ser divino era capaz de morrer e ressuscitar numa mesma vida, e a grande maioria das árvores de clima temperado tem esta característica. Elas hibernam e, para guardarem energia, perdem suas folhas.
Mas o resistente azevinho foge à regra, ele  um dos poucos que não morre, pelo contrário, com a neve se destaca e parece ainda mais vivo. Ele começa a frutificar no Outono e, no Inverno, está mais bonito e brilhante.
No post, "A Batalha dos dois Reis", é contada a lenda do Rei Carvalho e do Rei Azevinho que lutam pelo controle da floresta. No solstício de verão, o Rei Carvalho sucumbia ao Rei Azevinho que reinava até o solstício de inverno. De modo particular, este mito era utilizado para explicar as mudanças das estações do ano, utilizando-se de algo visivelmente natural e presente, sem que uma deidade longínqua e celeste pudesse ser responsabilizada por isso.
O azevinho é minha árvore favorita e não quero expor aqui os inúmeros motivos pelos quais se tornou o meu predileto. Embora não seja propriamente uma árvore mas botanicamente um arbusto, pode chegar aos oito metros e viver até 300 anos. Seu nome científico é Ilex, da família aquifoliaceae, que inclui a Erva Mate (Ilex paraguariensis), tão famosa entre a população dos Pampas brasileiros e os povos paraguaios, argentinos e chilenos que a utilizam para fazer chimarrão e tererê.
Ilex aquifolium
Mas, o Rei Ilex é, sem dúvidas, o Ilex aquifolium (azevinho europeu), espécie de folhas pequenas, verde-escuras, alternadas, lanceoladas, coriáceas e extremamente cortantes. 
Muitos outros arbustos são confundidos com o azevinho, chegando inclusive a ser vendidos como tal. Entre eles estão o Osmantus (Osmanthus heterophyllus - asiático), a Mahonia (Mahonia aquifolium - norte-americana) e a Espinheira-santa (Maytenus ilicifolia - sul-americana). Para os olhos menos criteriosos, a semelhança é tanta que é difícil diferenciar um e outro, por este motivo o Osmantus é chamado de "Falso Azevinho" e a Mahonia é também conhecida como "Azevinho de Oregon".
Mas há uma forma muito eficaz para se distinguir um azevinho legítimo das outras plantas semelhantes, basta observar a maneira como brotam as folhas: azevinhos verdadeiros possuem folhas que crescem alternadas, enquanto o Osmantus e a Mahonia têm folhas opostas.




Um Símbolo Natalino


Seus ramos e bagas estão estampados em cartões, toalhas de mesa, enfeites de portas, louças, entre outros adornos que fazem do azevinho um dos principais símbolos natalinos. O próprio Natal tem as cores da planta e a associação é rápida e espontânea quando alguém se depara com um arbusto.
O azevinho tornou-se um dos principais símbolos natalinos e muitos não sabem os reais motivos pelos quais isto ocorreu. A principal teoria é que, devido a falta de flores e cores no inverno do hemisfério norte, ele era um dos poucos que apresentavam um verde vivo e frutos vermelhos nesta época do ano, então, juntamente com a Hera (Hedera helix), eram feitas coroas e guirlandas para os festejos pagãos do Solstício de Inverno (Saturnália/Yule).
Posteriormente, as festas pagãs foram substituídas pela Festa do Natal cristão, mas hábitos arraigados dificilmente são deixados e o "Rei Azevinho" não perdeu sua coroa.
As famosas guirlandas começaram a ser usadas nos enfeites das igrejas cristãs e até mesmo o Papai Noel tem características do Rei Azevinho, basta observar as cores de suas roupas: vermelho como as bagas, verde como as folhas e branca como a neve.
Na realidade, o bom velhinho é multicultural e até hoje não se sabe ao certo qual sua verdadeira origem. Há quem assegure que o Papai Noel tem origem cristã, cuja lenda nasceu com São Nicolau de Mira, um generoso bispo da Turquia. Outros dizem que ele foi inspirado no velho Saturno (leia no Post "O ceifador - O Espirito do Ano Novo") e há também aqueles que afirmam é uma representação de Odin cuja festa, Yule, acontecia exatamente  no solstício de inverno (entre 21 e 24 de Dezembro). Em sueco, Papai Noel é Jultomte, em norueguês Julenisse e em dinamarquês Julemanden, e todos fazem referência à Yule, festival do solstício. Portanto, o rei pagão se tornou um símbolo cristão.
Há uma antiga canção natalina tradicional inglesa conhecida como "The Holly and the Ivy" (O azevinho e a Hera), cujo refrão principal diz "De todas as árvores da floresta, é o azevinho que porta a coroa". E quem é rei jamais perde a majestade.



sexta-feira, 8 de maio de 2015

Serpentes - O Mal Encarnado

Nenhum outro animal gera tanto medo e fascínio ao ser humano quanto as serpentes. Nas mais diversas mitologias, do oriente ao ocidente, das tribos mais antigas às mais recentes da história da humanidade, cobras são demonizadas e divinizadas.
São incontáveis as histórias que relacionam deuses e serpentes, talvez porque os seres humanos sempre mantiveram por elas um certo temor e respeito, assim como aos deuses.
Para a esmagadora maioria das pessoas, a cobra é o animal mais amedrontador do Planeta, o próprio mal encarnado. Salvo algumas exceções, a maioria dos mitos referente às serpentes a associam com algo maléfico.
O simples fato de olhar a imagem acima, deixa muitos de cabelos em pé. Não é a toa, pois a cobra é o animal mais mortífero do mundo, o que mais ameaça o ser humano, pelo menos aparentemente. Sabe-se hoje que os mosquitos são muito mais letais e perigosos aos seres humanos do que as cobras, mas nossos ancestrais não sabiam disto.
Nosso medo das cobras está diretamente ligado aos tempos em que pertencíamos aos grupos de hominídeos que viviam nas árvores. Os primatas - macacos, lêmures, símios e humanos - temem instintivamente as cobras desde muito cedo, desde a infância, reconhecendo nelas a ameaça iminente. 
Nossos ancestrais que viveram na África não tinham grandes predadores quando estavam nas árvores, porém tinham, muito próximo, um animal silencioso, de ataque rápido, mordida dolorosa e veneno altamente letal. O ancestral primata do ser humano, desceu da árvore, tornou-se ereto e um animal pensante altamente complexo , mas trouxe consigo a herança de milênios de convívio turbulento e atribulado com as serpentes. 
No post sobre o "Jardim do Éden" foi abordado o tema do lugar supostamente perfeito, que seria realmente  perfeito se não houvesse uma serpente capaz de tirar a paz. Certo é que as cobras sempre fizeram parte de nossos piores pesadelos e é de se imaginar o medo constante que os hominídeos tinham daquelas que partilhavam com eles as árvores das savanas e que, ao contrário dos pássaros e insetos, podiam ser confundidas com galhos e não eram nada amistosas. Talvez, na mente de nossos ancestrais primatas, as víboras eram más por excelência, pois ao contrário de outros animais que eles observavam, elas não se alimentavam de todos que picavam, e mesmo assim os matavam.
A mente humana não consegue facilmente desassociar algo que durante séculos de evolução foi criado para nossa proteção. O medo faz parte de um mecanismo de defesa, onde o enfrentamento pode significar a própria morte e manter a sobrevivência é mais importante.
Uma vez que o Homem criou a Deus como o símbolo de  proteção, o venerou primordialmente como o  Sol que todos os dias iluminava a Terra e trazia à tona tudo que era possível enxergar. Quanto às sombras, estavam repletas de cobras malévolas, de visão noturna, astutas, que não faziam barulho e atacavam no primeiro sinal de movimento e matavam, elas então se tornaram a representação do mal, muito mais concreta e corpórea do que o sol que não podia ser tocado.
A serpente demoníaca vivia na árvore, enganou o Homem  atrás do fruto apetitoso. Deu o bote e tirou a vida de Adão e Eva, expulsou-os do Paraíso. São seres que nunca mais terão nossa confiança e serão para sempre nossas inimigas.







segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

A Árvore da Vida - A Mulher e a Maçã


No livro do "Gênesis" capítulo 2, versículo 9 está escrito:

"Então o Senhor Deus fez nascer do solo todo tipo de árvores agradáveis aos olhos e boas para alimento. E no meio do jardim estavam a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal."

No post anterior foi abordado como o Homem fora expulso do Paraíso após ter comido do fruto da Árvore do Conhecimento. Devido à desobediência ao que lhes fora imposto, Adão e Eva deixaram o jardim do Éden para sempre.

Gên. 16 - 17:  "E o Senhor Deus ordenou ao homem: Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá."

Segundo o mito, através do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o primeiro homem e a primeira mulher foram condenados e banidos do jardim de Deus - toda história é envolvida por este feito. Mas, no livro da criação não há maiores detalhes sobre a "Árvore da Vida", como ela era e qual o seu real papel no mito. 
De acordo com o Gênesis, o único fruto que não podia ser consumido era o da Árvore do Conhecimento, todos os outros eram permitidos, e é sabido que a árvore da vida também tinha fruto:

Gên. 3,22-24: "Eis que agora o ser humano tornou-se como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não devemos permitir que ele também estenda a sua mão e tome do fruto da árvore da vida e comendo-o possa viver para sempre!"

Assim, conclui-se que a árvore da vida era também a árvore da eternidade e, embora não houvesse nenhuma proibição quanto ao seu consumo, ele não foi provado.

A ÁRVORE DA VIDA


Na continuação do versículo acima está escrito que, após expulsar o Homem do Paraíso, Deus colocou, ao oriente do Jardim do Éden, querubins armados por espadas flamejantes que guardariam o caminho da árvore da vida. Portanto, nem mesmo se quisesse voltar, o Homem seria capaz de tomar o novo fruto proibido e descobrir a fórmula da imortalidade.
Desde que o ser humano começou a compreender a sua existência, a morte foi  um grande mistério. Talvez, para aqueles que criaram o mito, descobrir este segredo era tão impossível quanto cruzar novamente os portões do jardim divino e enfrentar querubins armados.
De toda forma, o Homem nunca desistiu de encontrar outra fórmula para a vida eterna. Há séculos atrás, na Idade Média, grandes mestres da alquimia tinham como principal busca a famosa "Pedra Filosofal", o elixir da longa vida. 
Muitos viveram na frustrada procura pela famosa "Fonte da Juventude" que, segundo a lenda, possuía águas capazes de fazer rejuvenescer, curar as doenças e revigorar qualquer um que as tomasse ou se banhasse nelas. Há narrativas de que até mesmo Alexandre (o Grande) chegou a procurar por tal fonte.
Mas os mitos sobre imortalidade, árvores divinas e frutos miraculosos não são exclusivos do povo hebreu e do meio oriente. Na mitologia nórdica há uma fascinante história envolvendo alguns destes itens, porém, ao invés de uma só árvore, é um pomar guardado não por um Deus mas por uma bela Deusa. Ironicamente, nesta história, é a maçã o fruto da vida.

As Maçãs de Idunna
 
Na mitologia nórdica, toda a vitalidade, força e poder dos deuses (Aesir) só é possível porque existe uma forte presença feminina por trás disto. Ao contrário de outras mitologias, os deuses nórdicos não são eternos e imortais somente porque são deuses, mas por meio de um ato muito humano - o de comer.
A imortalidade dos memoráveis Odin, Thor e Loki depende de Idunna (Iðunn), uma bela deusa que faz brotar em seu pomar, maçãs douradas e, através de seu encanto, as transformam em frutos mágicos. Os deuses se alimentam destas maçãs diariamente, e este é o segredo do vigor dos Aesir.
Uma lenda viking conta que, certa ocasião, Idunna foi raptada por uma enorme águia a mando do gigante Thiazi. Com a senhora das maçãs em poder dos malvados gigantes, os deuses não tinham como manter seus poderes e logo começaram a ficar debilitados e a envelhecer. Foi preciso a intervenção de Loki, o astuto , que também estava envolvido em tal rapto, para que Idunna fosse resgatada e os outros deuses pudessem recobrar a juventude e a vitalidade.
Este é um mito um tanto interessante, pois entra em contradição com muitos conceitos judaico-cristãos. O primeiro deles é que a mulher, neste caso, não é a que leva à perdição, mas a que traz a vida. O segundo se trata do fruto em questão, a maçã, que há séculos foi considerado e apedrejado como ícone da perdição e do pecado e, nesta lenda, é glorioso e exaltado como alimento primordial dos deuses.
É certo que a maçã nem sempre fora relacionada ao fruto proibido; não há um só texto bíblico que a cite, posto que a macieira é uma árvore de clima temperado e frio e não havia como adaptar-se facilmente no árido deserto asiático. Este vínculo ocorreu na Idade Média, com o advento do catolicismo patriarcal. A Igreja, durante séculos alinhou ao pecado quase tudo que tivesse conexão com o feminino - a própria mulher era ligada ao demônio, por isso que tantas eram denominadas bruxas e foram vítimas das piores torturas na Inquisição. Muitas acabaram sendo queimadas por heresias e supostos pactos com o diabo (enquanto muitos homens saiam ilesos, apenas como vítimas da maldade do sexo oposto). 
Em muitas comunidades pagãs da Europa, a maçã era símbolo da mulher e da feminilidade. Talvez os povos antigos puderam observar a semelhança que existia entre a vulva e a maçã (quando a fruta é cortada ao meio) e a  relacionaram  ao órgão genital feminino. Consequentemente aos encantos da mulher.
Como tudo que estava ligado à sexualidade foi posteriormente rejeitado pela Igreja (ao contrário dos pagãos que não viam delito no sexo), a venerada maçã se tornou símbolo do pecado, Acreditava-se que a mulher era causadora do mal da humanidade e não o homem, pois fora Eva que tentou Adão e não o contrário.
Os mitos se opõem e se encontram em suas mensagens: de um lado está Eva (a mãe da humanidade) e do outro Idunna (a deusa que alimenta os Aesir), mas ambas capazes de mudar o destino de personagens lendários.
O Deus judaico-cristão mudou seus planos por um simples ato de Eva, e os nórdicos deixariam de existir se não fossem as maçãs que passavam pelo toque mágico de Idunna.  
Ambas mulheres, ambas que tinham nas mãos a vida de homens e deuses. Maldito ou bendito fruto?